A greve dos artistas de 1968

Há relativo consenso, na historiografia, de que o Regime Militar brasileiro não representou um bloco monolítico, homogêneo e linear. Ao contrário, ele pode ser caracterizado como um período bastante heterogêneo, sublinhado por etapas distintas, avanços e retrocessos e grupos eminentemente distintos pressionando tanto o poder como a sociedade.

Se houve momentos de maior tensão e grupos de maior conservadorismo, houve outras épocas menos agressivas refletindo as próprias idiossincrasias que marcavam os diferentes grupos de militares. É certo que, entre as Forças Armadas, se apoiava, em boa medida, a ditadura instalada em 1964 – mas esse apoio não representava indosso integral a tudo o que se promovia nos bastidores do poder para a manutenção do regime. Compreender essas contradições não implica aceitar ou apoiar o que foi feito; antes, representa atentar para a dinâmica de determinados eventos e das conjunturas deles derivados, percebendo que é muitas vezes nas fases menos agressivas e transparentes do passado que se consegue perceber, com maior apuro, a gestação de regimes discricionários.

Parece ser esse o caso da Grande Greve dos Artistas brasileiros, em fevereiro de 1968. Movimento organizado pelos principais nomes do teatro no Brasil naquele período, a Greve apresentou-se contra a censura que, desde fins de 1967 apertara o cerco contra as peças encenadas no país. É preciso ressaltar, nesse sentido, que o ano de 1968 é marcante na história contemporânea, por conta do Maio de 1968 francês, e no Brasil pela edição do Ato Institucional Nº5 que, de acordo com a maioria absoluta dos pesquisadores, instituiu a pior fase da ditadura brasileira – levando inclusive alguns apoiadores civis a romper definitivamente com o regime dos militares.

A greve dos artistas, nesse sentido, é curiosa e sintomática. Primeiro, por evidenciar que até dezembro de 1968, quando se promulga o AI-5, ainda se suportava alguma movimentação organizada da sociedade civil contra os atos cerceadores da liberdade no país. Mas, também, por informar claramente como alguns setores dessa sociedade civil ainda acreditavam que se poderia manter algum tipo de diálogo político com os militares no poder. A fala da atriz Tônia Carrero, em entrevista concedida à Tv Tupi, mostra o tamanho da inocência desses artistas, que se fiavam na palavra do ministro da Justiça de um governo ditatorial.

O apoio, velado ou aberto, da sociedade civil ao golpe de 1964 e aos anos de ditadura até o AI-5 em 1968 foi determinante para a solidificação do regime, permitindo inclusive seu fechamento progressivamente majorado por meio dos sucessivos atos institucionais. O diálogo que a greve dos artistas sugeria é um bom exemplo de como se articulava a sociedade, mesmo involuntariamente: legitimava com a oferta do diálogo um governo golpista e oferecia, à linha dura, argumentos para o fechamento político ainda maior da sociedade.

Sobre a Greve ver : http://www.jblog.com.br/hojenahistoria.php?itemid=7042

Vale a pena ver as entrevistas abaixo, concedidas ao longo do protesto por Fernanda Montenegro, Walmor Chagas e Tônia Carrero.

 

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