A Crise, a Greve e a Gente…

Crise. Essa palavra talvez nunca tenha sido tão utilizada no Brasil como na última década. Não houve um único dia que algum jornal ou revista não indicasse uma crise instalada ou instalando-se em algum órgão do poder público federal. Em 2008, então, com a crise econômica mundial, o termo virou ainda mais moda pois postulava-se, aqui e acolá, que sucumbiríamos derradeiramente e, enfim, chegaríamos a nosso verdadeiro destino: ser um país menor. Foi, talvez, a primeira grande crise mundial que nos afetou apenas tangencialmente. Talvez pela política neo-keynesiana adotada pelo governo Lula, suportamos bem a pressão econômica mundial e resistimos; aliás, crescemos! Mais uma vez a palavra crise foi politizada, dessa vez pela situação, que não cansou de lembrar o fato inédito do país ter se mantido estável numa crise mundial.

De fato, parecia algo realmente novo sobretudo se lembrássemos da década anterior em que, por duas vezes, crises muito menores provocaram problemas imediatos e sérios à economia brasileira. Isso sem contar a década de 1980 em que, aparvalhados economistas brasileiros tentaram acudir uma economia legada em frangalhos pelos militares, levando-nos enfim à moratória. (Pequena nota: um dos mais aparvalhados, o economista Mailson da Nóbrega, não teve o menor êxito sequer em controlar a inflação… hoje, não obstante, é uma das principais vozes ouvidas por nossa imprensa para criticar as posturas econômicas do atual governo).

Mas também existiram crises políticas profundas e, muito provavelmente, a crise do Mensalão, de 2005, marcou sensivelmente a história recente do país. Misto de prática de caixa 2 de campanha com financiamento de corrupção no varejo político, o Mensalão – tal como foi apresentado – ainda está por se provar. Gerou, contudo, uma onda de indignação que, como toda onda, desfez-se na areia, de sorte que Lula foi reeleito em 2006. Foi no meio daquela onda, bem quando ela estava mais evidente, que surgiram as tratativas para a greve dos servidores federais da educação de 2005, que se arrastou por todo o segundo semestre daquele ano e que tanto trabalho deu para ser reposta.

Entreouvidos, percebia-se que um governo fragilizado seria mais facilmente atingido pelo movimento grevista e tenderia a ceder. Cedeu pouco, mas demorou muito. Imobilizou universidades e colégios técnicos por um semestre, gerando toda a sorte de transtornos para toda a comunidade envolvida. O atual governo, por meio de pronunciamento realizado pelo ministro da Fazenda no Congresso, em 09/08, afirmou que, dados os contornos da crise mundial que se desdobra lentamente sob nossos olhos, não haverá nenhum tipo de aumento de gastos públicos – notadamente referia-se a aumento de salários para o funcionalismo. Atente-se para um fato importante: a economia mundial está colapsando, mas a brasileira ainda resiste aparentemente sem trauma por ora, e nosso governo está em seu primeiro ano, ainda muito forte (sobretudo se consideradas as pesquisas de opinião…)

Por outro lado, não deixa de ser curioso que, conquanto a agenda neo-keynesiana de 2008/09 tenha se mantido no tocante às obras públicas e à política industrial brasileira, o atual governo tenha adotado uma postura nitidamente neoliberal em relação ao funcionalismo público, contendo gastos do Estado justamente no que concerne aos vencimentos dos servidores.

A crise enfrentada atualmente pelo capitalismo é uma crise estritamente neoliberal; representa o esgotamento de um modelo em que o corte de impostos, a desregulamentação do mercado financeiro e a diminuição drástica do estado de bem estar social produziram distorções graves. Temos, no mundo de hoje, uma elite cada vez menor, não obstante mais rica e mais privilegiada, em detrimento de uma massa mais pobre e, sobretudo e principalmente, menos assistida. O Tea Party norte-americano representa não mais que a agenda da ultra-direita conservadora norte-americana destruindo o pouco que ainda havia, no poder público estadunidense, do New Deal e do Welfare State. E, curiosamente, ele está vencendo operando justamente pelas mãos de um democrata.

Parece realmente paradoxal, e especialmente não percebido: no que concerne à greve por salários, não haveria pior momento para iniciá-la dada a natureza da crise econômica que enseja preocupação inclusive no Brasil e em seu Governo (o que pode alongar o movimento grevista imensamente); no que tange à greve pelo recuo da agenda neoliberal, não obstante tenha sido essa mesma agenda a responsável pela crise, não há melhor momento por ser levada a efeito, conquanto a natureza estrutural do movimento não esteja sendo percebida por quase ninguém.

À gente, paralisados pela greve e amedrontados pela crise, cabe observar com atenção o movimento mundial tanto da economia como da política, mas também e principalmente da sociedade. O aumento do número de desempregados nos EUA, seguido de uma política de corte de investimentos sociais na proporção em que se cortaram impostos para os ricos (na prática do gotejamento neoliberal), tende a ampliar sensivelmente o desequilíbrio social norte-americano. A ideia de que mais dinheiro nas mãos dos ricos tende a gerar mais investimentos e por isso mais emprego e pagamento de impostos, gerando mais riqueza por fim distribuída, mostrou-se falaciosa na medida em que a especulação financeira desregulamentada eclipsou a economia real. Os jovens de classe média acampados na Espanha ou em Israel ou os protestos na Grécia parecem ser apenas a face menos cruel e mais “limpinha” dos tumultos dos últimos dias em Londres e cidades vizinhas. Parece realmente inútil buscar compreendê-los por uma agenda específica, organizada e sistemática. Ela não existe. Também parece dispensável classificar, sobretudo os suburbanos londrinos, como vândalos ou coisa do gênero (como preferem os jornalistas da Tv Globo). O fato de viverem em subúrbios, serem negros ou indianos, estarem próximos de drogas ou álcool realmente não representa novidade transformadora alguma.

Grosseiramente, pode-se sugerir que o estado de bem-estar social surgiu como tentativa do capitalismo de responder às demandas de uma sociedade que percebera o colapso do liberalismo, mas que estava pouco inclinada ao modelo socialista. Ou então, como forma do capitalismo se adaptar justamente aos interesses da classe trabalhadora, oferecendo alguns poucos anéis para preservarem, enfim, seus grossos dedos. Da crise liberal cujo início deu-se em 1929, emergiram duas agendas decisivamente: consolidou-se a influência socialista por um lado, mas por outro, deflagrou-se a experiência fascista. O estado de bem-estar social, nesse sentido, era o capitalismo com açúcar, contra o socialismo e contra a desindividualização da sociedade, representada por um fascismo que, inclusive, mostrara-se perigosamente genocida.

Ao longo das décadas, o estado de bem-estar social garantiu que as famílias sonhassem com futuros melhores para seus filhos, numa ideia de ascensão social e intelectual contínua. A universalização ao acesso à saúde e à educação, ao lado da ampliação do poder de compra da classe trabalhadora, refletia-se numa sensação de felicidade privada, bancada com impostos altos porém bem distribuídos.

A greve de hoje pode adiar, justamente, o sonho da universidade para muitos de nossos alunos – muitos dos quais provenientes de famílias cuja formação dos pais sequer chegou ao ensino médio. Mas adiar não significa extinguir: atrasa mas não interrompe. Vivemos hoje, no Brasil, o boom da classe C que, só neste ano, tende a gastar mais de 1 trilhão de reais. Estamos justamente em meio aos avanços alcançados por conta de uma bem executada política de…de…de… bem-estar social. (Embora sempre acompanhados pelo discurso neoliberal que defende o fim do mundo eminente e do Brasil por consequência). Nossos alunos, no antigo Cefet, estão todos buscando formação profissional e muitos pretendem ingressar na universidade assim que concluírem o ensino médio; sonham portanto, muito.

A drástica diminuição do papel do estado, em nível mundial, receitada a partir de Reagan e Thatcher no início dos anos 1980, levou ao paulatino desmonte do estado de bem-estar social e ao aprofundamento do neoliberalismo em escala planetária. A desregulamentação desenfreada em finais dos anos 1990 do mercado de capitais, que teve em Alan Greenspan seu principal defensor, cobrou seu preço com a crise bancária de 2008. Mas, ao contrário de 1929, isso não gerou uma nova política econômica. Ao contrário, está nos levando a uma nova injeção de neoliberalismo.

Pode parecer que tudo isso represente uma enorme colcha de retalhos. E é. Mas, se observado em perspectiva, começa a fazer sentido. Sobretudo quando se há uma greve por reposição salarial e outros detalhes, num momento em que o mundo globalizado se dissolve, as fronteiras se fecham, e os “vândalos” sem futuro de Londres ateiam fogo e saqueiam as lojas. Qual será a reação, além do imediato cassetete? Negar o imigrante e os movimentos à esquerda, assimilando-os a partes de um ataque aos verdadeiros valores ocidentais que inadvertidamente sempre associaram capitalismo a democracia? Destruir completamente as funções assistenciais do Estado, legando a massa ao desespero do vale-tudo pela sobrevivência? E nós, trabalhadores do Estado, para onde vamos? E nossos alunos e seus futuros, seus sonhos que ainda existem, para onde vão?

Na ausência de respostas certeiras, nosso blog passa a postar artigos, entrevistas e reportagens que tentam traçar o perfil de um momento que se pretende histórico.

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