Estudantes chilenos e o neoliberalismo

A ditadura militar chilena foi uma das últimas a se instalar na América do Sul. Iniciada em 1973, quando da ocupação do palácio presidencial e consequente morte do então presidente constitucionalmente eleito (Salvador Allende que, sugere-se, se matou quando da emboscada), durou até 1990, sempre sob o comando do ditador General Augusto Pinochet.

Atroz na perseguição àqueles que se indispuseram contra o regime, a ditadura de Pinochet também se notabilizou pela implantação, inédita em qualquer outro lugar do mundo até aquele momento, de uma agenda econômica tipicamente neoliberal, orientada pelo professor de economia norte-americano Milton Friedaman, da Universidade de Chicago.

Cerca de 25 economistas chilenos, formados pela Pontifícia Universidade Católica do Chile se pós-graduaram com Friedman nos Estados Unidos e, sob sua orientação, implantaram um plano que foi chamado de O Ladrilho e que impunha um conjunto de privatizações de empresas públicas ao lado de cortes de gastos e de um controle inflacionário rígido. Esse grupo de economistas, que por sua formação e a influência de Friedman ficou conhecido como os “Chicago Boys”, reinou na primeira década de governo de Pinochet e testou, no país, todo um conjunto de medidas que, posteriormente formariam o desenho do neoliberalismo que Thatcher e Reagan buscariam construir na Inglaterra e nos Estados Unidos.

A crise provocada pelos monetaristas, contudo, levou ao ministério da fazenda de Pinochet, a partir de 1982, um economista com inclinações keynesianas (o que acabou não resultando positivo) até que, em 1985, Hermán Büchi assume o ministério e, com uma política que mesclava tanto a agenda neoliberal como traços de política econômica keynesiana, criaria aquilo que se conhece por Segundo Milagre Econômico Chileno (sendo o primeiro atribuído ao período de predomínio dos Chicago Boys).

O fim da ditadura de Pinochet, em 1990, deu início a lento processo de distensão na sociedade chilena, levando ao poder uma sucessão de presidentes de centro-esquerda – o que culminou com a eleição e o mandato de Michele Bachelet, uma ex-presa política da ditadura de Pinochet.

Apesar de índices invejáveis de aprovação, o governo Bachelet não logrou êxito em eleger seu sucessor, tendo saído vitorioso o atual presidente Sebastián Piñera. Liderança do empresariado chileno, Piñera notabiliza-se pela crença no ideário neoliberal, defendendo a diminuição do Estado e de seu papel de financiador do desenvolvimento econômico e de reparador das diferenças sociais.

O atual levante dos estudantes chilenos, duramente reprimidos pela polícia do Chile, vai contra uma política que pretende cortar investimentos na universidade pública e, inclusive, cobrar mensalidades – se não as privatizá-las definitivamente.

Esse sempre é o sonho dos neoliberais. No fim do governo de Fernando Henrique no Brasil, por exemplo, seu ministro da educação, Paulo Renato de Souza, dizia sem a menor cerimônia que era hora de escolhermos se manteríamos o financiamento da educação por meio da sustentação das instituições ou por meio de créditos individuais aos estudantes. Ou seja, individualizando o problema e abrindo espaço para a privatização de nossas universidades.

Não por menos, Piñera declarou ontem – o que inclusive motivou que mais estudantes saíssem pela noite às ruas – que os estudantes deveriam lembrar que não existe nada grátis e que, se eles queriam gratuidade deveriam saber que alguém pagava por eles.

Oras, ninguém é burro para não saber disso e uma afirmação como essa é feita para ludibriar o indivíduo que paga impostos e se sente ultrajado por pagá-los (o que é muito comum, por sinal). O neoliberalismo adota o discurso que o imposto é uma chaga, que alimenta um estado obeso e caro, que deve ser enxugado ao máximo. Quando diz que alguém paga, tenta criar uma falsa impressão de exploração.

Não há exploração nessa relação por três motivos, Em primeiro lugar, a universidade pública é determinante para a construção científica de um país e, portanto, para sua equiparação em matéria de desenvolvimento intelectual com as demais nações. No limite, é a produção científica que gera desenvolvimento de qualidade em todos os campos da vida humana, sobretudo gerando independência (dispensável lembrar a frase exposta na biblioteca do Congresso dos EUA: “knowledge is power”). Em segundo lugar, não há exploração por que aqueles que a universidade forma dirigem-se para o mercado de trabalho, que é capitalista e, portanto, depende desses profissionais para reproduzir seu capital (o que nos leva a ponderar que se há exploração, ela é contrária: são os ricos que pagam muito pouco para ter gente treinada com dinheiro público para reproduzir e enriquecer seus negócios). E, por fim, e considerando a premissa anterior, quem mais deveria pagar pela universidade pública são as empresas que se valem de profissionais formados por ela, e não o estudante. Oras, uma empresa tem à sua disposição, todos os anos, inúmeros profissionais treinados com dinheiro público! Deveria, essa empresa, toda vez que contratasse alguém formado por universidade pública, pagar uma taxa ao Estado, como forma de recompensar o poder público pelo investimento que, então, passaria a gerar lucro para uma empresa privada.

Contudo, não é isso que pretendem os neoliberais. Querem cortar impostos dos ricos e de suas empresas (o que eles gentilmente chamam de desoneração tributária), querem cortar salários dos servidores públicos e querem, também, que o estudante pague mensalidade. Depois, também querem desonerar a carga dos impostos trabalhistas (pois não se conformam que alguém tenha direitos como aposentadoria e férias), para contratar o trabalhador que se formou pagando mensalidade, sem salário e direitos trabalhistas dignos.

Ao lutar por uma universidade pública, contra a polícia da democracia no Chile, os estudantes chilenos estão rebatendo mesmo é o bom e velho neoliberalismo, de triste memória na ditadura do país.

Para acompanhar a movimentação dos estudantes, e sobretudo como a imprensa conservadora adota a postura de Piñera e ataca os estudantes, vale observar alguns jornais chilenos, sendo os principais o La Nacion (www.lanacion.cl) e o El Mercurio (www.emol.com)

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