Da verdadeira idiotia latinoamericana

Há um livro, da década de 1990, em que três autores (o colombiano Plinio Apuleyo Mendonza , o cubano  Carlos Alberto Montaner e o peruano Alberto Vargas Llosa) cujo título inspira o dado a este post. Chama-se “Manual do perfeito idiota latino-americana” e busca, ao longo de suas páginas, desmistificar a influência do pensamento de esquerda na América Latina, sublinhando que o grande mal a acometer a região, antes de ser o liberalismo, o neoliberalismo, o imperialismo e o capitalismo eram mesmo o pensamento marxista adaptado ao exotismo latino, manipulação grosseira bem talhadas às necessidades de líderes regionais caudilhescos e populistas.

É um trabalho que resume bem o pensamento de uma época: a década de 1990. Só quem viveu aquele período consegue mensurar a inexorabilidade apresentada pelo neoliberalismo; o frenesi que causava uma privatização de grande empresa pública; o prazer em se falar em corte de impostos e em estado mínimo. O esfarelamento da URSS pouco tempo antes, ao lado da simbólica derrubada do Muro de Berlim, garantiam um otimismo do mundo ocidental especialmente forjado na negação de qualquer pensamento político e econômico que não fosse tributário do capitalismo mais desregulamentado, com a menor presença possível do Estado.

Além disso, pairava a certeza do “Fim da História”, apregoada pelo historiador norte-americano Francis Fukuiama. Era uma crença, quase milenarista, de que havia se constituído o modelo ideal e perfeito de reprodução material e de organização política – a democracia de tipo burguês, com mercado livre e completamente desregulamentado. Nesse universo, nada mais cafona que o pensamento de esquerda. Ser “proletário”, trabalhador, pertencer a uma classe social, buscar direitos atrelados à classe ou congêneres, fugia completamente ao script neoliberal, no qual éramos indivíduos. Não havia mais identidade de classe; aliás, cafona também se tornou palavra cafona e a identidade somente poderia ser pensada como elemento individual, e mesmo a nação, a nacionalidade, etc – senão nos jogos da seleção – era algo terrivelmente demodê (esse, termo mais antigo ainda que cafona).

De algum modo, privatizar, liberalizar, ingressar no mundo contemporâneo e cosmopolita exigia, enfim, um novo pacto histórico, tanto no Brasil como no restante da América Latina. Era preciso romper com o passado colonial mas, ao mesmo tempo, encerrar toda a estrutura explicativa que, desde o século XIX, percebia a região como linha auxiliar do desenvolvimento do centro do capitalismo. Mais que em qualquer outra época, não queríamos romper com o centro do capitalismo; antes, queríamos imitá-lo ao máximo. Descobriu-se definitivamente Miami, com sua estética ultra-brega, e sonhava-se com Palm Beach. Nossa classe média, muito menor que a atual, deliciava-se imaginando-se num avião para os Estados Unidos, ouvindo no discman importado o último cd de Chitãozinho e Xororó ou Leandro e Leonardo (sim: nunca se ouviu tanto dessas duplas como nos anos 90). O mundo dos eletrodomésticos chegava invariavelmente do Paraguai, donde desembarcavam vídeos cassetes de 4 cabeças, brinquedos, etc.

Era tudo muito provinciano, sem dúvida. Mas tudo estava no seu lugar: éramos a província. Não buscávamos romper com nada; queríamos privatizar, pagar menos imposto, comprar um carro e uma casa, nos darmos bem individualmente. Não é muito diferente de hoje, senão pelo fato de que esses sonhos individuais estão mais possíveis de serem realizados, não obstante por que constituídos por meio da ruptura com aquele mundo.

No ambiente daquele provincianismo, portanto, cabia questionar o legado esquerdista por que ele era tido, então, como o responsável pelo nosso atraso, pela nossa miséria, pela nossa inqualificável derrota. Éramos o que éramos por que não havíamos enfrentado o verdadeiro desafio do capitalismo, por que éramos fracos. Chegava, então, a hora, a nossa hora, adotávamos o neoliberalismo e, com isso, deixávamos para trás o populismo, o caudilhismo, estávamos prontos enfim para as benesses do mundo do capital, dos indivíduos, em oposição ao esquerdismo bocó e à luta de classes. O perfeito idiota latinoamericano era o tocador de bumbo das esquerdas, o jovem militante do partido comunista, a Mercedez Soza e os artistas engajados, eram todos aqueles que acreditavam nos símbolos dessa esquerda, em seus líderes, os dinossauros da esquerda latinoamericana que não haviam percebido que seu tempo exaurira-se. Era deles que se troçava, com o riso cúmplice da sociedade latinoamericana, que se sonhava empresária, capitalista, rica.

Deu tudo errado para o pensamento da direita, contudo. E os anos 2000 ao mesmo tempo em que afundaram, com sua nova dinâmica política e econômica, aquele mundo, fizeram emergir uma nova agenda diametralmente oposta àquela. Ressignificada, é bem verdade, mas voltou a luta de classes, o desenvolvimentismo está aí, o nacionalismo também, a América Latina se impõe ao mundo, barrou-se a Alca e o Brasil, bem, é uma das forças políticas e econômicas do mundo. Mundo que ainda está tomado pela vaga da transformação.

É na saudade daquele espírito da década de 1990 e tentando revivê-lo de alguma maneira que emerge o trabalhGUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA AMÉRICA LATINA dos autores Leandro Narloch e Duda Teixeira. Ambos jornalistas provenientes da revista Veja, refletem bem o tom da publicação, grosseiro, desrespeitoso e um tanto ignorante na maioria dos assuntos que trata. Além disso, se junta à obra anterior de Narloch, sobre o Brasil, e no fundo se junta a toda essa levada contemporânea dos politicamente incorretos: programas de humor que não possuem graça, jornalismo que não tem informação, livro de história que não tem critério nem metodologia. A crítica especializada aponta a ignorância dos autores e suas incompetências. Esse blog concorda, mas prefere apostar na escolha política: os livros (tanto sobre o Brasil como sobre a América Latina) representam provas dos últimos suspiros de uma manifestação típica dos anos 1990, em que a síndrome de estocolmo que assolou essas paragens, nos fazendo reféns de nossa própria história, apaixonados que estávamos pelo desenvolvimento do capitalismo alheio e desdenhando nossas próprias heranças e possibilidades. O que esses autores não suportam, bem como também é o caso de muitos jornalistas da grande imprensa, é o fato de que jamais seremos como os EUA e, logo, eles próprios jamais serão norte-americanos. Um jornalista de Veja jamais será um repórter da Newsweek, São Paulo jamais será NY e nosso sucesso, se houver, virá daquilo que temos de mais local, de nossas tradições, de nossos heróis, de nossa própria história. Por eles tanto ridicularizada, por eles tanto desdenhada. Abaixo, seguem as resenhas da historiadora e jornalista Sylvia Colombo, pela Folha de São Paulo, e da historiadora especialista em América Latina, Maria Lígia Prado.

Livro reflete ignorância brasileira sobre a América Latina

 

SYLVIA COLOMBO
DE BUENOS AIRES

(originalmente publicado aqui)

Brasileiros, em geral, têm uma visão estereotipada e mal-informada sobre a América Latina. A raiz disso está no preconceito que nossa elite do século 19 tinha de tudo o que acontecia para além de nossas fronteiras.

País que não conheceu a guerra para se tornar independente e que teve fronteiras estabelecidas desde cedo, o Brasil nunca se sentiu parte daquilo que o rodeia.

Por conta de sua relativa posição confortável, teve dificuldades para entender que essas nações, ao saírem de lutas sangrentas, tiveram de definir fronteiras e sistemas de governo, além de levantar economias. Um caminho mais complexo que o nosso, e que levava a novos embates.

Aos olhos do Brasil, o que acontecia do lado de lá sempre pareceu algo incompreensível e folclórico, caudilhos selvagens que não se entendiam e anarquia popular constante. Parecia que esses povos “não davam certo” por serem incompetentes, desconsiderando suas dificuldades, presentes desde o primeiro dia de seus estados nacionais.

O desconhecimento da história, desde então, provocou distanciamento e, em muitos casos, puro preconceito.

Um exemplo deste último caso é o “Guia Politicamente Incorreto da América Latina”, dos jornalistas Leandro Narloch e Duda Teixeira, que presta um desserviço ao conhecimento regional, ao reforçar essa mistura de presunção e desdém pela história latino-americana.

O livro diz querer atingir o “falso herói latino-americano”. Seus alvos são Che Guevara, Simón Bolívar, Juan Domingo Perón, Pancho Villa, Salvador Allende, os povos pré-colombianos e os revolucionários do Haiti.

Os autores reforçam traços que consideram extravagantes desses personagens e dizem que, por seus caprichos ou sua estupidez, esses ditos falsos heróis acabaram com as chances de seus respectivos países de passarem a integrar um suposto mundo evoluído.

Em todos os casos, ignoram a história e o contexto social que deram origem a essas figuras.

Por exemplo, no capítulo dedicado a Perón, parte-se de uma premissa simplista e equivocada. Para os autores, a Argentina, nos anos 1940, tinha “tudo para decolar”, mas foi “só Perón aparecer” que o país passou a “apontar para baixo”.

Em primeiro lugar, não é certo que tudo estava tão bem. O processo de independência argentino foi conflituoso e demorou para se consolidar. Entre 1816, quando foi declarada a emancipação, até 1862, quando Bartolomé Mitre assumiu como presidente do país unificado, houve muitos embates entre Buenos Aires e as províncias. Embates estes que estão presentes até hoje, basta analisar o conflito entre Cristina Kirchner e o campo argentino, em 2008.

Narloch e Teixeira dizem que a partir da Constituição de 1853, o país se organizou e começou a prosperar. Errado. Nesse momento, só para se ter uma ideia, Buenos Aires, a principal província, se recusava a integrar a então chamada Confederação Argentina.

A chegada dos imigrantes europeus é apresentada como um fator altamente positivo, mas os autores passam por alto pelo fato de que sua incorporação à sociedade também gerou muitos conflitos. Só para se ter uma ideia, durante a epidemia de febre amarela que atingiu Buenos Aires em 1871, os italianos foram responsabilizados pela população e hostilizados. O presidente Domingo Faustino Sarmiento (1868-1874) diversas vezes se impacientou com a falta de compromisso dos europeus com a sociedade, acusando-os de virem ao país apenas atrás de lucro fácil.

É certo que o país estava bem economicamente quando Perón assumiu o poder. Mas é equivocado dizer que ele estragou tudo sozinho. Um presidente é fruto de um contexto. Perón teve amplo apoio popular e de parte da elite. Se o peronismo faz bem ou mal ao país, é uma outra discussão, o que não se pode é considerar o general um extraterrestre caprichoso e autoritário que pousou em Buenos Aires e acabou com a prosperidade argentina.

Em alguns casos, a dupla de autores fala como se tivesse descoberto a roda. Dizer, a essa altura do século 21, que Che Guevara era um personagem violento como se fosse uma novidade é chover no molhado. Não só já foi feita a revisão desse personagem, como até no cinema ela foi parar, no filme “Che” (2008), de Steven Soderbergh. Cuba é hoje uma ditadura e com a economia em frangalhos, só esquerdistas muito radicais ainda a defendem como modelo.

No capítulo sobre Simon Bolívar, fica claro que a intenção não é entender o personagem, mas atacar Hugo Chávez. Tampouco aqui dizem algo novo. Que Bolívar era um aristocrata criollo e nada socialista, está em quase todas as suas biografias.

Isso não diminui sua importância no processo de emancipação. Foram em geral esses criollos que sentiram o vazio deixado pela queda da coroa espanhola em mãos francesas, queriam liberdade de comércio, liam os livros com as ideias iluministas, etc.

Os autores deitam e rolam em cima de uma frase que Bolívar efetivamente escreveu: “A melhor coisa a fazer na América é ir embora”. Mas não explicam que ela foi dita pouco antes de sua morte, com o líder adoecido e decepcionado.

Mas o encerramento desse capítulo entrega o verdadeiro objetivo dos autores. Dizem que o pensamento de Bolívar está vivo “a julgar pela ditadura que a Venezuela se transformou nos últimos dez anos”. Cabe lembrar que a Venezuela não é uma ditadura, como Cuba hoje ou o Chile sob Pinochet. Pode-se considerar Chávez um mau governante, populista, amigo de líderes indefensáveis, mas foi eleito pelo povo venezuelano.

No capítulo que trata dos índios, os autores sugerem que a conquista não foi tão violenta assim e que índios também eram sanguinários.

É sabido que astecas e incas dominavam outros povos e que mantinham seus impérios na base da força. Igualmente que os astecas faziam sacrifícios humanos para suas divindades, o que sem dúvida é um horror.

Porém, os autores escorregam quando sugerem que os espanhóis foram melhores porque fizeram a autocrítica de seus atos violentos, enquanto os índios não.

Para exemplificar, contam rapidamente a história do frei Bartolomé de las Casas (1474-1566), que efetivamente levou à coroa espanhola reclamações sobre o modo como os indígenas eram tratados.

O que Narloch e Teixeira não contam é que Las Casas foi uma voz praticamente isolada em seu tempo, e que teve muitos problemas para ser ouvido até ser levado em consideração. Não é possível sugerir que a partir dele os espanhóis ficaram completamente bonzinhos.

A repulsa que os autores sentem pelas culturas latino-americanas é notória e se faz notar em pequenos detalhes. Dizem, por exemplo, que mexicanos são exóticos porque celebram o Dia dos Mortos saindo às ruas para se divertir com esqueletos. Alguma explicação sobre como surgiu essa tradição, qual o tamanho da festa e o que ela significa para o povo mexicano? Nada. É coisa de quem provavelmente sai muito pouco do próprio bairro.

Os estereótipos não param de chover, sem qualquer curiosidade para interpretá-los e com o único objetivo de ridicularizar tudo.

Em sua “receita para se preparar um bom latino-americano”, dizem que é “um requisito moral usar ponchos e saias coloridas –ou pelo menos desfilar com um colar de artesanato indígena.” Me pergunto se os autores dessa frase andaram nos últimos tempos pelas ruas das grandes cidades latino-americanas, como Buenos Aires, Santiago, Bogotá ou Montevidéu. É realmente assim que imaginam que as pessoas andem pelas ruas? Se acham isso é porque faltou então um mínimo de pesquisa de campo.

Não se trata de ser contra revisões da história. Mas que sejam feitas tentando entender a história, não folclorizando seus personagens e lendo tudo o que foi dito antes como obra de historiadores marxistas ideologicamente comprometidos.

Com seu “Guia Politicamente Incorreto da América Latina”, Narloch e Teixeira colocam mais um tijolinho no muro de ignorância e soberba que separam o Brasil do resto do continente.

Livro sobre ‘falsos heróis latino-americanos’ usa simplificações oportunas, omissões e interpretações discutíveis, avalia professora

MARIA LIGIA COELHO PRADO É PROFESSORA DE HISTÓRIA DA AMÉRICA LATINA NA USP – O Estado de S.Paulo

MARIA LIGIA COELHO PRADO

 (originalmente publicado aqui)

O principal objetivo desse Guia Politicamente Incorreto da América Latina, nas palavras dos autores, é derrubar do pedestal o que chamam de “falsos heróis latino-americanos”. São “falsos” porque deles se construíram injustas imagens laudatórias. O livro quer mostrar a “outra” face desses homens, indicando seus equívocos, fraquezas e incapacidades. Cada capítulo está dedicado a um dos personagens que será objeto de críticas, de Simón Bolívar a Che Guevara.

Sem dúvida, a decisão dos autores de centrar o texto nas figuras dos “heróis” ou dos assim denominados “grandes homens” é bastante decepcionante. A desmistificação de heróis – “falsos” ou não, latino-americanos ou europeus – foi tarefa já exaustivamente cumprida pelos historiadores. Para que o passado histórico seja compreendido, é indispensável que se faça uma cuidadosa análise dos pensamentos e ações de homens e mulheres envolvidos na complexa trama de questões sociais, políticas, culturais, religiosas e econômicas.

Para construir seus argumentos e ordenar sua narrativa, Leandro Narloch e Duda Teixeira se apoiam em muitas citações retiradas da bibliografia e indicam suas fontes em notas de rodapé, conferindo ao livro um pretenso ar de respeitabilidade acadêmica.

Todos os capítulos trazem afirmações polêmicas, simplificações oportunas e interpretações discutíveis que mereceriam ser esquadrinhadas. Repetem a equivocada estratégia de pinçar frases a esmo, retirando-as do contexto histórico, atribuindo-lhes valores positivos ou negativos sem as devidas explicações e restringindo, portanto, sua compreensão. Diante de tantas possibilidades para o exercício da crítica, analisamos dois procedimentos utilizados pelos autores para sustentar seus pontos de vista.

O primeiro deles é o de se apropriar de uma fonte bibliográfica contestada e corroída por suspeitas e apresentá-la ao leitor brasileiro como fidedigna e isenta. O capítulo sobre Salvador Allende, que é particularmente controverso e recheado de afirmações refutáveis, exemplifica tal utilização imprópria. Narloch e Teixeira, no item 6 do capítulo, retiram informações do livro do chileno Víctor Farías, Salvador Allende, Anti-semitismo e Eutanásia, para acusar o falecido presidente de racista e antissemita e para associá-lo a certas práticas nazistas. Essas rotulações já foram fortemente denunciadas e refutadas no Chile, inclusive com a publicação de documentos que demonstram os equívocos de todas as acusações.

Para mais clara compreensão do manuseio das fontes pelos autores, vamos nos ater à questão do racismo e antissemitismo. Sobre esse tema, Narloch e Teixeira reproduzem trechos retirados do livro de Farías, que supostamente teriam sido transcritos da tese Higiene Mental e Delinquência, que Allende escreveu para obter o título de médico em 1933. As frases atribuídas a Allende estão carregadas dos piores preconceitos sobre judeus, ciganos, árabes, italianos, homossexuais e alcoólatras. Entretanto, a Fundação Presidente Allende, da Espanha, para refutar as diatribes de Farías, publicou a tese original de Allende, que também está disponível na internet. O que se constata é que Allende estava, no trecho mencionado, reproduzindo frases do médico e criminologista italiano Cesare Lombroso – ele afirma isso literalmente – numa discussão sobre suas teorias, como ainda era usual no começo dos anos 30. A conclusão de Allende sobre as possíveis relações, defendidas por Lombroso, entre origem étnica e delito criminoso, é a de que não havia dados precisos para demonstrar tal influência “no mundo civilizado” (p. 115 da tese). Frase esta que não aparece na transcrição de Farías e do Guia. Como se sabe, o bom historiador e o bom jornalista devem checar suas fontes, estudá-las, compará-las, garantir sua credibilidade e depois transcrevê-las com correta isenção.

O segundo procedimento refere-se ao mecanismo de utilização de uma fonte bibliográfica de prestígio para referendar ou legitimar conclusões bastante diferentes daquelas defendidas pelos autores do Guia. O capítulo sobre Pancho Villa, líder da revolução mexicana, é, nesse sentido, exemplar. A intenção explícita de Narloch e Teixeira é demonstrar que Pancho Villa não era antiamericano e não foi um Robin Hood latino-americano (p. 239). Para alcançar seu objetivo, os autores fazem referências a trabalhos de historiadores de onde retiram informações pontuais e dados específicos. Entre eles, um se sobressai, pois é citado em 27 das 47 notas de rodapé: Friedrich Katz, historiador da revolução mexicana, homem de convicções esquerdistas e autor de uma monumental biografia de Pancho Villa. Nela, Katz salienta o lugar de Villa no movimento revolucionário e procura fugir das lendas e da construção do mito. A trajetória pessoal e política de Villa é analisada integrada ao contexto social do México. Assim, existe um fosso entre a abordagem e conclusões de Katz e aquelas encontradas no Guia. A voz de autoridade de Katz é utilizada apenas para conferir credibilidade aos argumentos do Guia.

Para terminar, uma observação de caráter geral. Os autores apresentam no Guia uma visão desdenhosa sobre a história da América Latina. Só se entende essa exacerbada desqualificação se ela for pensada como a outra face do real desconhecimento dos autores sobre o assunto.

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