A “desocupação” da USP pela PM

Foi na surdina, por volta das cinco e meia da manhã, que os cerca de 400 policiais da tropa de choque da Polícia Militar de São Paulo invadiram o prédio em que os estudantes da Universidade de São Paulo estavam acampados, exigindo justamente que a mesma PM desocupasse o campus da Universidade.

A proibição da entrada de policiais nos campus de universidades, salvo em casos específicos e por solicitação explícita do reitor, decorre de tentativa histórica de salvaguardar o espaço da universidade, e seus estudantes e servidores, de qualquer ingerência externa indevida, garantindo o livre exercício da autonomia universitária.

Ocorre, contudo, que o crescimento contínuo da insegurança pública não respeita, necessariamente, as “fronteiras do conhecimento”. Os campi universitários, nesse sentido, sempre foram espaços propícios para pequenos desvios de conduta (como fumar maconha em carros que passam sempre lentamente pelas avenidas vazias) ou inclusive para que assaltos pudessem ocorrer, o que na USP, com seu campus enorme, mal iluminado e ermo levou até mesmo a um assassinato no estacionamento da Faculdade de Economia no começo deste ano.

O que fazer? Impedir que a PM faça rondas e prenda suspeitos ou permitir que ela adentre os muros da universidade, mesmo que isso implique perigo à autonomia do espaço universitário? Uma vez tendo entrado, ter um tipo de atuação dentro da universidade diferente daquela exercida no cotidiano da Polícia, nas ruas e morros da periferia ou manter a mesma linha dura das ruas, nas portas das faculdades das universidades?

Nesse sentido, foi muito curiosa a reação tanto daqueles que apóiam o trabalho da PM na USP como daqueles que são contrários a ele. Os que apóiam aplaudiram o fato de que três meninos fossem presos por fumarem maconha na porta da FFLCH (o prédio das Ciências Humanas da Universidade), bem como a reação destemperada da mesma PM que partiu com balas de borracha e cassetetes para cima de uma comunidade visivelmente irritada, endossando prática de linha dura contra a criminalidade (mesmo que a criminalidade, aqui, seja infinitamente menos nociva que, por exemplo, dirigir alcoolizado). Os contrários alegaram que a Polícia não deveria agir com truculência contra estudantes universitários flagrados em ilícito, sugerindo mesmo que sem querer que, se fossem pobres da periferia sem estudo tudo bem, era parte do trabalho da polícia reprimi-los.

Tendo invadido, em represália, o prédio da administração da FFLCH, os estudantes em assembléia decidiram desmobilizar o levante impondo a necessidade de dialogar, com o reitor, sobre o acordo com a PM e a necessidade de suspendê-lo – conquanto a maioria do alunado apóie tal acordo.

Um grupo, que se mostrou insatisfeito com os rumos da assembléia, desrespeitou a vontade da maioria dos alunos da Universidade e da maioria dos alunos ligados ao seu próprio movimento, e num ato corajoso porém equivocado, decidiu invadir e manter ocupado o prédio da reitoria da USP, inclusive com seus membros cobrindo os rostos para evitar a identificação – como fazem os presidiários revoltosos.

Na imprensa, foram chamados de mimados, de irresponsáveis e, até mesmo, de bandidos disfarçados de estudantes. Atiraram pedras em repórteres que lá estavam para cobrir a ocupação, num flagrante protesto contra a mídia empresarial e deixaram claro que exigiam negociação.

O que fez então o reitor, do alto de sua competência? Açulado por setores de uma imprensa hidrófoba, partiu para o tudo ou nada, entrou com pedido na justiça de reintegração de posse, expulsou os estudantes na base da violência e da truculência de dentro da reitoria que pertence tanto ao reitor como aos estudantes, colocou setenta deles na cadeia – serão transferidos ainda hoje para um presídio – os indiciará criminalmente e fez toda uma comunidade perplexa com a falta absoluta de inteligência para administrar crises.

A reitoria não é o prédio em que despacha o reitor. A reitoria não é um espaço físico onde se encontra a burocracia da universidade. A reitoria não é o lugar específico em que se coloca a placa oficial em que se escreve REITORIA. A reitoria é onde está o reitor. É menos o espaço físico e mais a capacidade de conciliar as divergências do meio universitário, o lócus onde se define o bem comum da coletividade acadêmica. Assim como uma aula pode ser dada ao ar livre, por que o que faz a aula não é a sala ou o quadro negro, mas a presença de alunos e professores em comunhão, o que faz a reitoria não é o prédio, não são os computadores ou gabinetes: é o reitor e sua capacidade de cuidar de sua comunidade.

Grandino Rodas poderia ter transferido a reitoria para qualquer outro prédio da Universidade, esvaziando simbolicamente a ocupação e mostrando um mínimo de inteligência e sofisticação política. Preferiu mandar “prender e arrebentar”. Tentando desocupar o prédio da reitoria, Rodas esvaziou a autoridade mesma do reitor, incapaz a partir de agora de mediar qualquer processo na universidade.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s