Da série de contos de Luciano Benigno

Por Luciano Benigno

– Pra lá? Tem nada não. Mato, grota, biboca, mato… onça.

– Já fui, sim senhor… encontrei nada não: sertão é grande por demais.

– Tava atrás dela. Saiu de noite, no escuro, me deixou aqui. Matutei muitos dias, esperei outros tantos, dormia nada não. Foi batendo raiva, uma bubiça, pensei que não tinha remédio, não. Saí, depois, desembestado: foi. Andei. Achei rastro não. Cansei.

– É… aí eu voltei. Fiquei aqui, cismando.

– Hoje? Importo mais não, quer dizer, às vezes, sim. Não. Quando chove, a água escorre aqui, escorrida de lado, pingando nas folhas, aguando no chão: aí eu lembro, sim, muito. Ela falava: “barulhinho da água de chuva é igual à canção de mãe, quando a gente é pequena. Serve pra adormecer a gente, embalando: lembro da mamãe”.

– Então, às vezes, só às vezes, torço pra não chover, porque lembrar dela seca meus olhos. Mas a chuva vem, assim mesmo, e secando meus olhos molha a roça: isto tem lá o seu lado bom. A vida tem disso: de tirar aqui e ponhar pra lá. Eu me viro, senhor.

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