Do Detetives da História: “O Vizinho que ninguém quer”

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O Vizinho que ninguém quer

Reportagem do ‘Estadão’, muito interessante que fala sobre as revoltas negras e seus impactos, grandes ou não, ressaltando também o medo que essas revoltas geravam, nós Detetives achamos a reportagem interessante e pelo fato de ser uma reportagem atual, nos chamou atenção .

No best-seller O Choque das Civilizações, o cientista político Samuel Huntington dividiu o mundo em oito grupos culturais e criou uma categoria à parte, a dos “estados solitários”, onde se encaixariam os haitianos. “O Haiti é o vizinho que ninguém quer ter. É um país sem parentes”, dizia o autor, morto em 2008. O país mais pobre do Hemisfério Ocidental não fala inglês nem espanhol. É uma ex-colônia da França isolada no Mar do Caribe.

Ironicamente, a maldição da Ilha de Hispaniola é consequência de seu maior sucesso, a Revolução Haitiana, única revolta de escravos bem-sucedida da história. Em 1791, três anos antes de os jacobinos franceses abolirem a escravidão nas colônias, o escravo Toussaint L”Ouverture liderou uma legião de negros que venceu as três maiores potências da época: França, Espanha e Grã-Bretanha.

Inspirado por ideias iluministas, ele libertou os escravos do Haiti muito antes dos britânicos, que posaram para a posteridade como os primeiros a extinguir o escravismo. As vitórias de L”Ouverture aterrorizaram tanto a Grã-Bretanha que Londres quis reconhecer a independência haitiana em troca da promessa de que o líder negro não exportasse a nova moda da liberdade para a Jamaica e sul dos EUA.

O Haiti dos tempos de L”Ouverture era conhecido como a “Pérola das Antilhas”, rico entreposto do comércio de açúcar e um país de vanguarda – foi a segunda nação a se tornar independente nas Américas (a primeira foi os EUA).

A notícia do sucesso de uma revolução de escravos no Caribe teve profunda influência em toda a região, incluindo o Brasil. O medo das elites brancas de que o exemplo fosse replicado se espalhou e ficou conhecido como haitianismo. “O Haiti foi estigmatizado como inimigo de todos os regimes coloniais e escravistas das Américas”, diz o historiador John Lynch, da Universidade de Londres.

O Haiti começa então sua longa jornada de isolamento político e econômico. Em uma época em que EUA, Brasil e toda a América Espanhola eram escravocratas, a rebeldia haitiana foi condenada e a região fez de tudo para prevenir o “contágio” do haitianismo. “Os revolucionários hispano-americanos se preocuparam em dissociar-se da Revolução Haitiana”, diz Lynch.

O venezuelano Francisco Miranda temia o efeito que o haitianismo pudesse causar à sua reputação na Europa. “Não permita Deus que outros países sofram o mesmo destino do Haiti, palco de crimes cometidos em nome da liberdade”, dizia Miranda. “Seria melhor que tivesse permanecido sob a opressão da Espanha.”

Até Simon Bolívar deu as costas para o Haiti. Em 1816, o então presidente haitiano, Alexandre Pétion, forneceu dinheiro e armas para a campanha de Bolívar com a condição de que ele libertasse os escravos das nações independentes. O Libertador não só se esqueceu da promessa como excluiu o Haiti do fracassado Congresso do Panamá, de 1826, que deveria ser um marco do pan-americanismo.

O tratamento dado pelos EUA também foi carregado de preconceito. Thomas Jefferson, então presidente americano, dizia-se avesso à escravidão, mas era proprietário de escravos e defendia a superioridade racial dos brancos. Ele ofereceu ajuda à França para restaurar o domínio colonial no Haiti. Segundo o diplomata francês Louis Pichon, “era o medo dos negros, mais do que a simpatia pela França, que influenciou a decisão de Jefferson”.

No Brasil, o grande fluxo de escravos ao longo do século 19 fez renascer o haitianismo em vários momentos. O fenômeno fundamentou a intolerância radical da elite brasileira às rebeliões de escravos. A principal delas ocorreu em 1835, em Salvador. A Revolta dos Malês, de negros muçulmanos, foi duramente reprimida e seus lideres fuzilados.

A historiografia também associa o medo de uma revolução escrava no Brasil à assinatura da Lei Eusébio de Queirós, que proibiu o tráfico negreiro, em 1850, e ao incentivo à imigração estrangeira, que pretendia substituir a mão de obra negra e branquear a sociedade brasileira.

Reportagem na íntegra :

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-vizinho-que-ninguem-quer-ter,496960,0.htm

Fonte: estadao.com

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