Joaquina, filha de Tiradentes

joaquina

Em meados de 1970, houve em vila rica um processo que envolveu Tiradentes, reivindica junto a autoridade local a posse de seus bens, na ocasião de sua prisão. Antônia Maria que a escrava lhe havia sido doada pelo alferes, a menor engravidou, quando Tiradentes  tinha 40 anos, assumiu a paternidade daquela que seria sua única descendente comprovada por documentação.

Houve um rompimento de casamento, não se sabe o que teria tanto irritado o alferes a ponto de fazê-lo romper, A professora Júnia Furtado, do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais, diz que rompimentos e abandonos como os de Tiradentes eram práticas corriqueiras na Ouro Preto do final do século XVIII: “Minas tem uma tradição de concubinato muito forte, e surgiu no início da colonização aurífera por vários motivos, até mesmo por uma questão demográfica, por uma imigração maciça de homens sem mulheres para casar. E também há uma forte influência da tradição africana, que não via esse tipo de união como algo censurável. Por conta da decadência da mineração do ouro, dá-se uma evasão masculina e começa um processo inverso: aumento da população feminina, mulheres solteiras que não encontram mais maridos, alto índice de bastardia, e de homens brancos com mulheres mulatas. Por incrível que pareça, Ouro Preto não era uma sociedade tradicional. Apesar de idealmente ser uma sociedade patriarcal assentada no matrimônio, na prática não era bem isso o que acontecia”. E arremata: “O comportamento do Tiradentes se circunscreve numa prática que era cotidiana, apesar de não ser o modelo idealizado pela Igreja e pelo Estado”. Júnia chama também a atenção para o perigo de se pôr Antônia Maria como simples vítima de Tiradentes: “É preciso ler com cuidado e desconfiança a figura da mulher vítima. Na verdade, a mulher de fins do século XVII já gozava de uma boa autonomia, principalmente as mais pobres. E, depois, era prática bastante comum esse tipo de abandono como o perpetrado por Tiradentes. Há diversos relatos sobre isso, e é preciso notar que não só a mulher era vítima: muitas vezes era ela que abandonava o homem! Porque não havia um laço de casamento constituído, e a ligação era, portanto, mais facilmente rompida”.

Sabe-se muito pouco sobre o paradeiro de Joaquina, as mulheres da época adotavam o sobrenome do marido, apagando qualquer informação da sua família de origem, portanto é bem provável que toda história de Joaquina tenha se perdido na história após ter se casado. Outra hipótese é que ela tenha vivido escondida e ter mudado de nome para sobreviver, naquela época os contrários da corte portuguesa eram mortos.

Não havendo registro de qualquer outra notícia sobre o destino da Joaquina de carne e osso, Maria José de Queiroz, romancista, poeta e ensaísta, constrói a personagem de ficção. Nesta ficção montada junto ao episódio da Inconfidência, Joaquina aparece já moça narrando sua vida, seus pensamentos, os diálogos com sua mãe. Fala da amizade com o negro Itacolomi, que lhe conta fatos do Alferes. A autora até lhe arranjou uma profissão bem plausível na época: a de copista de partituras. Com erudição a autora o faz detalhadamente, abordando, por exemplo, os serões das velhas fazendas, bem como o estado da arte da música e da pintura da época.

 

 

“A História escolhe, modela, revela suas personagens.

Elas ficam existindo como pessoas da nossa rua, de

nosso convívio.

Mas há outras – as personagens que não entraram

na História,

humildemente anônimas para todo o sempre,

para todo o sempre desconhecidas.

Joaquina sequer chegou a ser esquecida. Nem se

lembraram de esquecê-la.

Ficou existindo em si, não no papel ou na lenda.

Um silêncio de mil dobras pousa em seu nome comum.

Entretanto Joaquina vive e conhece os bens e os males

da vida.

Joaquina, filha de Tiradentes.

Haverá glória maior para ela?”

Poeta:  Plinio Mendonça

 

Fonte de pesquisa:

Revista de História– Acesso dia 13/09/2016

 

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