Nação e Nacionalismo

Existem diferentes abordagens nos estudos realizados no que concerne à questão da nação e do nacionalismo. Alguns autores abordaram a nação e o nacionalismo como um fenômeno natural, a-histórico. É o caso da análise de Lord Acton que escreveu na segunda metade do século XIX. Suas idéias foram profundamente influenciadas pelo cristianismo. Acton defendeu a não equivalência entre a nação e o Estado, pois entendia que a referida equivalência reduziria a uma condição subalterna a maioria das nacionalidades presentes nas fronteiras do Estado. Assim, haveria uma nacionalidade dominante e as demais seriam dependentes ou extintas. A partir dos anos 1960 e 1970 surgiram vários e importantes estudos sobre nação e nacionalismo. Dentre os autores que se destacam nos temas referidos estão Ernest Gellner, Miroslav Hroch, Elie Kedourie, Anthony Smith, John Breuilly, Eric Hobsbawm. Mais recentemente, pode-se destacar os nomes de Michael Mann e Katherine Verdery, dentre outros, que tem contribuído para o tema. O que se observa é que os referidos termos são analisados sob diferentes perspectivas e que não há consenso entre os estudiosos a respeito da conceituação e da melhor forma de abordá-los. Mesmo os estudiosos que procuram classificar as diferentes abordagens, não o fazem de forma consensual. Pretende-se a seguir apontar os principais argumentos elaborados por alguns dos estudiosos assinalados acima. Inicialmente serão apontadas as idéias de um estudioso da questão nacional, Anthony Smith, que pode ser classificado como um dos principais representantes da abordagem denominada de etno-simbolista. Essa perspectiva considera que a questão étnica tem um papel importante na formação da nação e dos nacionalismos. Busca identificar o legado simbólico presente nas etnias, integrantes de determinados países. Em seguida serão feitas referências aos argumentos dos teóricos geralmente considerados representantes da abordagem denominada de modernista: Ernest Gellner, Benedict Anderson, Eric Hobsbawm eJohn Breuilly. Embora possam ser considerados pensadores da abordagem modernista, nãosignifica afirmar que tenham a mesma perspectiva analítica e que suas teses sobre nação e nacionalismo sejam consensuais. São considerados modernistas na medida em que compartilham algumas idéias: entendem que a nação e o nacionalismo surgiram no mundo moderno, particularmente no final do século XVIII, a partir da Revolução Francesa e da Revolução Americana. Surgiram num contexto histórico de modernização econômica com o fortalecimento da sociedade capitalista (ou industrial como prefere Gellner); modernização sócio-cultural com a padronização e expansão da educação e das línguas; assim como uma modernização e centralização político-administrativo. Anthony Smith trabalha com a noção de ethnies (comunidades étnicas). De acordo com Guibernau, Smith procura compreender a natureza e o conteúdo dos mitos e símbolos das comunidades étnicas; compreender os valores mais relevantes, assim como as lembranças históricas das referidas ethnies. Para Smith, a visão modernista do nacionalismo incorre numa espécie de superficialismo histórico, pois trata a nação e o nacionalismo como produtos da modernidade e desconsideram possíveis continuidades étnicas na formação das nações modernas. Entende ser relevante o estudo de “modelos culturais da comunidade pré-moderna”, pois a compreensão de tais modelos “podem ajudar a explicar por que tantas pessoas sentem-se atraídas pela nação como seu foco primário de lealdade e solidariedade no mundo moderno”. Smith concorda que o nacionalismo, como ideologia e movimento, seja moderno, nascido em fins do século XVIII. Considera que foi nesse período que surgiu uma “doutrina especificamente nacionalista, afirmando que o mundo se divide em nações distintas, cada qual com seu caráter peculiar; que as nações são a fonte de todo o poder político; que os seres humanos só são livres na medida em que pertencem a uma nação autônoma…”. Apesar disso, não se deve, segundo o autor, deixar de investigar as continuidades entre o passado étnico e as nações modernas.”O fato de muitas partes do mundo terem sido social e culturalmente estruturadas em termos de diferentes tipos de comunidades étnicas (ou ethnie), na Antiguidade e na Idade Média, como continuam a ser até hoje, e de as ethnies terem alguns elementos em comum com as nações modernas (mitos sobre os ancestrais, lembranças, alguns elementos culturais, e às vezes um território e um nome) pode proporcionar um ponto de partida melhor para o estudo das transformações e dos ressurgimentos envolvidos na formação das nações modernas e do papel desempenhado pelo nacionalismo nesses processos.” Isso deve ser considerado mesmo sabendo-se que elementos das etnias possam ter sido construídos, reconstruídos e até mesmo inventados. Mesmo que mudanças e acontecimentos traumáticos possam ter afetado as ethnies, elas manteriam o sentido de uma história e cultura comum. Para Smith, as nações modernas (com exceção de nações recentes) não são apenas constituídas pelos traços da modernidade apontadas pelos autores da abordagem modernista, mas também pelos legados étnicos pré-modernos.

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