Bertha Lutz e Pagu: O Feminismo brasileiro na Era Vargas

Bertha Lutz foi uma cientista, política e líder feminista brasileira de atuação marcante na luta pelos direitos femininos entre os anos 1919-1936. Em 1922, criou a Fundação Brasileira do Progresso Feminino, cujo intuito era promover a inserção social feminina através da educação e profissionalização voltada para as mulheres. Também, foi líder do movimento na luta pelo direito ao voto e exerceu o direito de ser votada assumindo o cargo de deputada federal no ano de 1936. Bertha participou ativamente na formulação de leis e projetos voltados para a ciência e para o público feminino, discursava divulgando os resultados das pesquisas científicas de seu pai, Adopho Lutz, como por exemplo, questões quanto ao combate da malária no Distrito Federal.

Contudo, ativistas do movimento feminista da época levantavam críticas ao feminismo de Bertha Lutz, afirmando que o mesmo possuía caráter conservador e burguês. Ilustrando tal crítica, podemos utilizar como exemplo o essencialismo de Bertha ao justificar seu projeto de lei para garantir que a enfermagem contasse com mão de obra exclusivamente feminina, apresentado no seguinte excerto:

“Ora, desde os tempos mais remotos, desde os primórdios do cristianismo, até o surgimento de Florence Nightingale na guerra da Criméia, e de Ana Nery no Brasil, a enfermagem foi sempre vocação feminina reconhecida como tal. Não é orientação da Ciência Médica moderna que insiste na conservação da profissão da enfermagem em mãos femininas, habilitando-as para o exercício dessa maternidade espiritual, por preparo técnico rigoroso.”

Ainda assim, outros textos de Bertha mostram-se contrários aos argumentos utilizados na justificativa, trazendo então a hipótese de que este tipo de afirmação era comumente utilizada como estratégia para alcançar os objetivos da FBPF. Rachel Soihet adentra o “feminismo tático” de Lutz na detalhada pesquisa “Táticas para a conquista de direitos para as mulheres (1919-1937)”.

Nesse contexto, vale citar também Patrícia Galvão, mais conhecida como Pagu, que foi um grande nome da luta feminista brasileira, muito embora pertencente à vertente oposta à Bertha Lutz. Pagu foi militante do Partido Comunista Brasileiro e não concordava com as posturas de Lutz para com a luta feminista. Pagu foi a primeira mulher brasileira à ser presa por motivos políticos. Pagu atuava no campo das artes, foi uma dramaturga de grande importância para o antropofagismo, movimento de oposição ao modernismo. Casou-se com Oswald de Andrade e perante à crise econômica de 1929 e a revolução de 30, adotou ideais de esquerda.

Quanto ao movimento feminista, Pagu é pioneira do movimento voltado para o materialismo histórico. Sua luta tinha como base o ideal de que a situação social feminina só teria real transformação caso houvesse também a transformação das estruturas sociais, ou seja, o papel da mulher na sociedade só teria alteração notável caso o sistema político e econômico do país também fosse transformado. Pagu aparece na história feminista como símbolo de luta e resistência, ainda que tenha sofrido machismo dos próprios partidos comunistas para os quais militou. Também, suas produções artísticas (tais como peças e poemas) mostram-se de um engajamento essencial para a luta da época.

FÓSFOROS DE SEGURANÇA

Fósforos de segurança

Indústrias tais

Fatais.

Isso veio hoje numa pequena caixa

Que achei demasiado cretina

Porque além de toda essa história

De São Paulo – Brasil

Dava indicações do nome da fábrica.

Que eu não vou dizer

Porque afinal o meu mister não é dizer

Nome de indústria

Que não gosto nem um pouquinho

De publicidade

A não ser que

Isso tudo venha com um nome de família

Instituição abalizada

Que atrapalha a vida de quem nada quer saber

Com ela.

Ela, ela, ela.

Hoje me falaram em virtude

Tudo muito rito, muito rígido

Com coisinhas assim mais ou menos

Sentimentais.

Tranças faziam balanças

Nas grandes trepadeiras

Estávamos todos por conta de.

Nascinaturos espalhavam moedinhas

Evidentemente estavam brincando

Pois evidentemente, nos tempos atuais

Quem espalha moedas

Ou é louco, ou é porque

Está brincando mesmo.

O que irritou foi o porque

PAGU, 1960.

 

Enfim, se tratando das duas figuras apresentadas, é de suma importância ressaltar a relevância social que ambas obtiveram num contexto histórico de participação feminina quase nula, não apenas como líderes do movimento feminista, mas também como mulheres que ultrapassaram as convenções sociais e foram em busca de igualdade, de voz e participação política. Sendo assim, é inevitável inferir que o protagonismo feminino nesta época ecoa até os dias atuais, inspirando e fortalecendo as, ainda muitas, lutas femininas.

Eternamente Pagu – Norma Bengell (1987). Disponível em:

<http://youtu.be/MFylqrCYB_U&gt; Acesso em: 06/03/2017

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