Do Pragmatismo Político: Racismo? O que eu tenho a ver com isso? Só porque sou branquinha?”

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Atriz Fernanda Lima, escolhida pela FIFA junto com o marido para substituir Lázaro Ramos e Camila Pitanga no sorteio da Copa comenta polêmica sobre racismo “O que eu tenho a ver com isso? Só porque eu sou branquinha?”

 

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‘Fui convocada e como tal aceitei e vou fazer o meu trabalho. O que eu tenho a ver com isso? Só porque eu sou branquinha?”. Fernanda Lima em entrevista a Mônica Bergamo, na Folha

Por José Renato Baptista

 

Racismo? O que eu tenho a ver com isso?

Só porque eu sou branquinho? Eu pago as minhas contas e meus impostos. O que eu tenho que ver com o racismo? Aliás, onde vocês estão vendo racismo? As pessoas falam estas coisas porque podem ficar anônimas.

Não, eu não estou anônimo. Meu nome é José Renato Baptista. Sou antropólogo e professor universitário.

Então, eu posso confortavelmente falar sobre este assunto. Eu levanto bandeiras. Várias. Contra as injustiças, contra a desigualdade, contra o preconceito. Eu não acho que as coisas não tem a ver comigo. Eu me comprometo com elas. Não tenho uma “imagem pública”, mas uso o espaço público: leciono, dou palestras e conferências, exponho as minhas ideias. Não crio polêmicas porque posso me defender com o anonimato. Polemizo pelas coisas que acredito, porque quero construir uma sociedade e um mundo mais justo.

Então, respondendo à fala da “atriz”/apresentadora Fernanda Lima (saiba mais aqui sobre o veto a Lázaro Ramos e Camila Pitanga), eu digo que sim, você tem tudo a ver com isso. Você que não se questiona, que não se pergunta, que acha que não é com você, você tem tudo a ver com isso. E sim, porque você é branquinha. Porque você ocupa um lugar histórico de opressão neste país há mais de 500 anos. Porque você tem privilégios concedidos pela sua condição de cor há séculos. Ignorar isto é fingir que o mundo é cor de rosa e as relações são fraternas, quando o conflito existe e ameaça e afeta a todos nós, brancos, pretos, quase pretos e brancos pobres que de tão pobres são quase pretos. Ignorar que neste país ser branco, sobretudo nos meios de comunicação, é uma forma de obter privilégios, é como disse uma amiga, virar a cara para o lado, para não ver um elefante no meio de uma kitchenette.

É fingir que não ocorre em nosso país o extermínio continuado de jovens negros, posto que das vítimas de homicídio no Brasil, em cada dez sete são negras. Fingir que não sabe que negros recebem menores salários e tem menos postos de comando e direção na iniciativa privada. Fingir que não sabe que o tempo escolaridade de negros e pardos é inferior ao dos brancos.

Sim, Fernanda, você pode querer não enxergar isto. E achar que é só mais uma polêmica. É justo reconhecer que você, como disse, trabalha há seis anos com a FIFA e, portanto, não tem nada com isso. Mas sim, Fernanda, você tem tudo a ver com isso e tem a ver com a negação histórica da imagem do país. Um país que estabeleceu em sua história políticas públicas visando “embranquecer” a população. Você pode ignorar isto, sim, mas infelizmente, tomando conhecimento não pode negar e dizer que não tem nada com isso.

Fernanda, você pode se achar uma das pessoas mais gentis e atenciosas do mundo, e talvez no trato pessoal até seja. E sim, talvez seja apenas uma invenção de um jornalista. Mas pega mal Fernanda. Pega mal porque reflete toda uma história de racismo de um país que teima em não se ver como racista. Pega mal porque somos o país onde existe discriminação, mas ninguém se assume como racista ou que discrimina alguém. Pega mal porque você reforça uma imagem e um estereótipo racista, uma visão do país “mestiço”, mas que se enxerga como “branco” (ou “branquinho”, se preferir).

Não acho que você deva recusar um trabalho que você conquistou, como diz, há seis anos atrás. Mas convido você a refletir que, às vezes, pode estar muito mais coisa em jogo do que o fato de você “ser branquinha”. Fica o convite à reflexão.

 

 

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Do Pragmatismo Político: Os radicais e a democracia

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Em tempos de hegemonia conservadora e apaziguamento da questão social, as manifestações ainda constantes provaram que pequenas fagulhas cotidianas criadas através de pequenas vitórias simbólicas podem alimentar uma brasa inerente a qualquer sociedade extremamente desigual como a nossa

 

Ano que vem teremos eleições.Em 2014 vamos escolher presidente da república e governadores e vamos renovar toda a câmara. A “festa” da democracia já está começando e vamos compulsoriamente exercer nosso direito de escolha e votar TOm um candidato de nosso agrado (ou não). No espetáculo montando de dois em dois anos, colocamos nossa máscara de palhaço e vamos fazer parte deste lindo circo político. Palhaço não porque fazer política seja uma palhaçada ou inútil, mas exatamente porque o exercício nos faz crer que ao participar do jogo democrático-liberal estamos fazendo política, que é assim que o sistema “funciona” ou, pior, que em nosso papel de cidadão votante vamos escolher pelas urnas as mudanças que julgamos serem necessárias para a nossa sociedade.

Não, não temos que crer nisso.

“Muito longe de ser justa, democracia liberal é um jogo de cartas marcadas onde o parlamento vem apenas corroborar e legitimar decisões tomadas fora do domínio público” (citado aqui) e é isso que temos que ter em mente quando observamos qualquer pleito democrático-liberal em nossas terras. É quase uma mistura de circo com puteiro, em que troca de favores monetários, mensalões, lobbies, favorecimentos ilícitos, lícitos e interesses escusos são os meios normais de funcionamento e onde não há espaços para ideologias anti-sistema funcionando dentro dele mesmo. A história enterrou a idéia social-democrata radical europeia de se atingir o socialismo através da democracia liberal. O chamadoeurocomunismo foi um fracasso em sua tentatiava de se chegar ao socialismo e uma sociedade plenamente justa e igualitária em praticamente todos os países que foi honestamente tentado (Itália e França por exemplo). Talvez se tomarmos Finlândia, Dinamarca e Noruega como exemplos, ignorando o papel de suas multinacionais pró-lucro (algumas estatais ou largamente subsidiadas) na constituição de sua prosperidade, teríamos um dos exemplos mais próximos de um socialismo bem sucedido através da democracia liberal.

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Desperdice o seu voto!

Dada a natureza da própria democracia liberal, como observamos nos últimos artigos aqui noPragmatismo, é inviável uma candidatura radical de esquerda, mesmo que não revolucionária, especialmente porque ela está largamente baseada nos anseios da classe média “progressista” brasileira, um grupo tão sem substância que penso seriamente o que defenderia se o voto fosse facultativo e a maconha, legalizada.  A inviabilidade não reside numa falha da esquerda sectária e desunida, ou mesmo num questionável reacionarismo das antigas classes médias (como disse Marilena Chauí) ou conservadorismo das novas classes médias (como disse André Singer), mas no próprio jogo democrático liberal feito para que a vitória de uma esquerda digna do nome, sempre seja de pirro. O número de concessões que a esquerda tem de fazer para os representantes do capital e da elite que ela veio questionar são tão grandes e tão intransponíveis (dentro da legalidade) que a esquerda acaba sempre alterando o que no fundo não altera muita coisa. Não foi o sistema que foi alterado pela chegada dos socialistas ao poder no Brasil ou na Europa, mas os socialistas que mudaram profundamente ao chegar ao poder.

No jogo político eleitoral em que estamos inseridos podemos participar como jogadores, bolas ou torcedores, jamais como donos de estádios ou de equipes; o máximo que podemos tentar é ser árbitro, trabalhando no interior do Estado tentando apaziguar os problemas,  o que na prática acaba reforçando todo o sistema que supostamente temos que modificar. Essa mediação (e tentativa de mudança “por dentro” do sistema) foi chamada por alguns de pragmatismo político, por outros de política de resultados e, como vimos anteriormente, é melhor chamar apenas de democracia liberal. Não é por acaso que os partidos “socialistas” europeus (e o PT no Brasil), em substância, são bastante parecidos com seus “arqui-rivais”, as diferenças são menores do que as semelhanças. Se você está jogando o jogo, é preciso colocar o uniforme e seguir as regras. “O sistema é foda, parceiro”.

Nestas vindouras eleições temos de ter a certeza de que não estamos fazendo nada de revolucionário ou significativo para a mudança das coisas, mesmo votando nos partidos tidos como radicais (PCB, PSTU, PCO, ou mesmo PSOL), e mais ainda votando nulo. É aqui que reside uma questão fundamental para a esquerda radical no país: se reconhecemos que pouca coisa – ou nada – mudará através deste ou de qualquer pleito eleitoral, qual o sentido de votar em algum partido? Este é um dos principais argumentos do voto nulo: a própria inutilidade e falta de substância das eleições democrático-liberais torna o voto nulo o único verdadeiramente real.

Porém, numa sociedade pouco radicalizada e apaziguada como a nossa, mesmo depois da suposta ruptura advinda com as “jornadas de junho”, o voto nulo também não modificará absolutamente nada, pior: nem ao menos o seu protesto silencioso trará alguma coisa nova, simplemente indicará um descontentamento vazio e sem rumo. Na alegoria anteriormente exposta, o voto nulo é torcedor que não foi ao estádio e reclama que os jogos andam muito ruins.  Isso sem precisar citar a falácea da nulidade das eleições e dos referidos candidatos pelo voto nulo, fato já desmentido pelo próprio Tribunal Superior Eleitoral e mesmo assim, propagada de dois em dois anos por mal informados ou ingênuos, que personificam o problema da política nos políticos e não no sistema capitalista corporativo que deles precinde, compra e fabrica,

Numa situação em que a esquerda radical já perdeu, o máximo que podemos fazer é levar a discussão mais adiante, para tornar tudo mais claro ou termos mais tempo e espaço para falar, abrindo oportunidades para incitar o “constrangimento público” e abrindo os caminhos para conscientização em massa, parte fundamental do caminho que a esquerda radical almeja. Algo que falamos em nosso último texto. No entanto, não é raro escutar um ativista radical que governos neoliberais eram bons para a luta revolucionária, pois seu total desapego ao trato da questão social era combustível ideal para as contradições de classe, fomentando o caminho perfeito para uma atuação dos partidos revolucionários nas classes oprimidas. Pensam que assim, num clima de “quanto pior melhor”, nada mais positivo para um movimento revolucionário do que um governo neoliberal oprimindo e explorando mais ainda os trabalhadores.

 

Nada mais errado.

Ignorando o fato de a direita dominar praticamente todo aparato ideológico substancial, seja a mídia ou as igrejas, ainda temos que lembrar as pequenas lutas dialéticas, nas quais cada contradição do sistema aparece em uma forma específica e determinada de acordo com a situação e, como tal, deve ser combatida naquela específica ocasião, seja em lutas de gênero, credo, região, país, classe, judicial e, para o nosso caso, discussão eleitoral. Estas pequenas lutas devem ser exploradas e vencidas, dentro de um contexto que jamais deve ser esquecido: da luta dialética maior contra as forças opressivas do dinheiro. Desta forma, numa esfera de debate político por excelência que é a do debate eleitoral, que, mais e mais, o próprio sistema procura tornar desideologizado, transformando-o em mercado alienado de consumidores atomizados, travestindo a política como análise de produtos eleitorais e “gestão responsável e sem ideologia”, é fundamental a busca constante de re-ideologizaçãodas eleições, dos debates e da política como um todo, afim de esmagar de vez a falácia de Fukuyama do “fim da história”.

Não podemos deixar de lembrar, porém, que num quadro como este transparece o sectarismo típico da esquerda radical, diluindo em três ou quatro partidos os votos politizados que deveriam se canalizar em uma única frente, mais forte, argumentativa e combativa. PSTU, PCB, PCO, PPL  (e até mesmo o PSOL) são no geral bastante semelhantes, especialmente se considerarmos o sistemas eleitoral e de forças nos quais querem se inserir e combater e uma comunidade política onde não é raro observarem indistintamente a esquerda toda, radical ou não, como “petistas”.  Portanto, não há sentido em dividir tanto as forças da esquerda radical em micro-partidos que no máximo – com otimismo – elegerão um ou dois representantes.

E, pressupondo que, em maior ou menor grau, estes partidos não concordam com o funcionamento fisiológico, interesseiro e comprado da democracia liberal, a importância deles reside primeiro em evitar a hiperexploração dos trabalhadores e da usurpação do que é público pelo privado, segundo mas não menos importante, fortalecer o debate radical no parlamento, constrangendo constantemente o poder constituído com categóricos questionamentos, quebrando alguns paradigmas que sustentam o sistema. Então, no contexto das pequenas lutas dialéticas citado acima, podemos ter como interessantes  exemplos a atuação do deputado Marcelo Freixo na questões das milícias no RJ, ou mesmo do parlamentar Romário no papel do Estado, FIFA e CBF no jogo do capital privado.

Assim, o papel da esquerda radical não é evitar as eleições e aliená-las mais ainda. Temos de pensar nas pequenas lutas que não temos a opção de evitar e que vamos fazer sabendo que a derrota é certa, mas com a consciência de que podemos prolongar o suficiente para transformar um debate inútil em uma discussão inconveniente, relevante o suficiente para incitar fagulhas em nossa população despolitizada. Em tempos de hegemonia conservadora e apaziguamento da questão social, as manifestações ainda constantes provaram que pequenas fagulhas cotidianas criadas através de pequenas vitórias simbólicas podem alimentar uma brasa inerente a qualquer sociedade extremamente desigual como a nossa. O objetivo da esquerda radical na democracia liberal é alterar a frase “se votar mudasse algo, seria proibido” para “quando votar muda alguma coisa, ele se torna proibido”. Levar as contradições aos seus limites!

 

*Leandro Dias é formado em História pela UFF e editor do blog Rio Revolta. Escreve quinzenalmente para Pragmatismo Politico. (riorevolta@gmail.com)

 

Do Tok de História: O BRASIL ENTRE BEATOS, CANGACEIROS E CORONÉIS

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Em ‘O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro’ Glauber Rocha capta as fissuras da sociedade brasileira. Retratando a violência e a crueza das relações sociais no sertão nordestino, constrói a ‘estética da fome’

Alexandre Leitão

Eu andei por esse mundo gente, e conheci a desgraça dos outros… e aprendi uma verdade que estava na Sagrada Bíblia: É olho por olho e dente por dente!

Cangaceiro Coirana, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro.

Durante o século XX, amadureceu no seio da intelectualidade brasileira o desejo de identificar os traços mais característicos do ethos nacional. Sociólogos, antropólogos, historiadores e artistas se perguntavam no que, de fato, se constituiria o Brasil, e o que o impediria de transformar-se num país plenamente realizado nos planos socioeconômico e político. Nomes como Euclides da Cunha, Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Hollanda publicariam obras-chave na tentativa de encontrar um significado para a existência nacional. No campo das artes plásticas, Cândido Portinari retrataria a existência sofrida do sertanejo, e na poesia e dramaturgia Oswald de Andrade ergueria a bandeira do antropofagismo cultural, como resposta e atestado do processo de realização artística no país.

Foi unindo diversas dessas teses, além de criando suas próprias, que Glauber Rocha definiu uma narrativa da história brasileira, expressa em obras como Terra em Transe (1967); e plenamente desenvolvida em O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969). Neste longa-metragem, continuação de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), acompanhamos o destino melancólico de Antônio das Mortes, personagem vivido por Maurício do Valle, jagunço e matador de cangaceiros, contratado para realizar um último serviço.

Gláuber Rocha

Logo nos créditos iniciais, o filme apresenta um rápido sumário em francês, que Glauber – além de diretor, também roteirista do filme – julgou necessário para a compreensão dos eventos e do recorte histórico que queria construir (fruto de uma coprodução franco-brasileira, o prefácio quer explicar a um público estrangeiro os eventos históricos que considera mais relevantes para a compreensão do filme): “Chamam-se – ‘Jagunços’ assassinos de aluguel; ‘Coronel’ grandes proprietários de terras; ‘Beatos’ comunidade de camponeses miseráveis e místicos; ‘Santo’ pessoa que dirige espiritualmente essas comunidades”. Junto ao glossário se encontra uma rápida descrição dos cangaceiros enquanto “bandidos místicos que desapareceram do Nordeste do Brasil em 1940”, tendo sido Lampião o “mais célebre de todos”.

A apresentação reforça o sentido de disparidade estilística e narrativa em relação a Deus e o Diabo na Terra do Sol, que se passa no final da década de 1930. Ocorrendo em um momento relativamente atemporal, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro retrata um Nordeste em franco processo de modernização capitalista, no qual crescem as cidades, constroem-se estradas e postos de gasolina, e já se considera inevitável o advento da industrialização e da reforma agrária.

O sertão de Glauber

É em meio a esse cenário de abandono forçado de estruturas arcaicas, que um bando de cangaceiros e beatos, liderado pelo bandoleiro Coirana, ataca um pequeno povoado da caatinga, despertando pavor nas pessoas da região, que são forçadas a implorar pela ajuda de Antônio das Mortes – um jagunço aposentado.

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Chegando à cidade, um oficial da lei esclarece ao pistoleiro que, diferente do tempo das intensas volantes (expedições militares que partiam à caça dos bandos de Lampião, Corisco, e tantos outros), ele espera que tudo seja resolvido de forma rápida. Percebe-se que o perigo real de rompimento da ordem mantida pelo Estado no Nordeste simplesmente inexiste no que concerne ao bando de Coirana. Eles representam uma mera surpresa inconveniente, já que as condições para o surgimento dos cangaceiros por aquelas paragens já haviam, há muito, desaparecido.

O fato pode ser observado quando ocorre a segunda invasão do povoado pelos cangaceiros, retratada por Glauber em uma interminável panorâmica (como se chama a tomada em que a câmera gira sobre seu próprio eixo), na qual o bando, vestido com roupas tradicionais do sertão nordestino e indumentárias próprias de cultos afro-brasileiros, em vez de disparar suas armas contra o inimigo, dança e canta anarquicamente uma gira de louvor a São Cosme e Damião e ao orixá Xangô. O ataque, neste caso, é alegórico, representando a invasão de todo um legado cultural, popular e mestiço, que as elites brasileiras teriam sempre buscado frear.

E é sob esse aspecto que triunfam as pretensões estilísticas do filme de Glauber Rocha. Ao criar um grupo de cangaceiros extemporâneos, o cineasta retrata uma espécie de vingança histórica, segundo a qual uma segunda vinda do Cangaço tenderia a se justificar pela necessidade de punição simbólica da estrutura agrária brasileira, responsável primeiramente pela opressão secular sofrida pelos sertanejos. O chefe local, coronel Horácio (interpretado por Jofre Soares), longe de representar o perigo dos outrora onipotentes donos de terra do Norte, não passa de um velho cego, cuja vida se resume a divagar sobre uma realidade que ele jamais consegue apreender completamente. O velho é também desprovido do respeito do delegado Mattos (personagem de Hugo Carvana) e de sua própria mulher Laura, interpretada por Odete Lara, cujo caso amoroso é conhecido por todos os personagens.

 

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À ausência da necessidade material de uma rebelião (em vista do processo de modernização do sertão nordestino), corresponderia o imperativo de uma justiça simbólica capaz de punir os poderosos pelos crimes que haveriam cometido em tempos já remotos. É a percepção disso que faz Antônio das Mortes arrepender-se do assassinato de Coirana, a quem fere com uma peixeira, e decidir proteger os beatos. Estes são então chacinados por outro exército de jagunços, convocado pelo coronel Horácio.

Em uma cidade já fantasma, resta a Antônio das Mortes, Antão (comandante negro dos beatos, encarnado pelo ator Mário Gusmão) e ao professor de história do vilarejo, interpretado por Othon Bastos, concluírem a vingança iniciada por Coirana, eliminando o coronel e seus matadores. Ao cabo da trama, porém, não há uma multidão jubilosa tomando as ruas da cidade, ou uma sequência explicativa que mostre a celebração dos sertanejos.

 

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A justiça histórica retratada por Glauber Rocha é crua e desprovida de consequências práticas: o processo de modernização do Nordeste seguirá inexoravelmente, deixando cair por terra as arcaicas relações de trabalho e poder da região, repostas por outras, mais adequadas a um mundo em contínua transformação. Resta a Antônio das Mortes, o pistoleiro redimido, simplesmente marchar sem rumo por uma rodovia empoeirada, tomada por grandes caminhões de carga e ladeada por um posto de gasolina da Shell, símbolos do novo mundo que invade o Sertão e altera sua paisagem.

A estética da fome

A protoanarrativa histórica de Glauber acaba assim por ecoar aquela delineada por Euclides da Cunha, cuja obra Os Sertões, caracteriza a relação entre o Brasil capitalista e modernizante do litoral, e o interior antigo e isolado, como sendo marcada pelo signo da violência. Violência que permeia os laços entre senhores e camponeses – mediada por jagunços – e a violência dos grandes centros urbanos, que desde o final do século XIX buscam sufocar, progressivamente, qualquer experiência ou modelo social que se interponha à marcha do “progresso”.

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Em 1965, o próprio Glauber ressaltaria o traço brasileiro da violência e a necessidade desta existir como nervo central do projeto artístico do Cinema Novo (representando ainda um relevante instrumento de transformação política) em seu manifesto “Uma estética da fome”, publicado na Revista Civilização Brasileira.

Nele, o cineasta defende que “somente uma cultura da fome, mirando suas próprias estruturas, pode superar-se qualitativamente: e a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência. (…) Pelo cinema novo: o comportamento exato de um faminto é a violência e a violência de um faminto não é primitivismo”. Esta se veria traduzida de maneira ritualizada nas alegóricas cenas de assassinato de O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, primeiro filme colorido do diretor: a paleta de cores de cada plano e cada sequência remete quase sempre ao vermelho, a tons terrosos, à sujeira e ao sangue.

O imenso impacto estilístico e narrativo do Cinema Novo (com destaque para as obras de Glauber Rocha) rondaria fantasmagoricamente a história do cinema nacional, ecoando até os dias de hoje. Como se pode atestar em produções recentes, caso de O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho, escolhido para ser o candidato brasileiro ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2014.

 

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Na trama, seguimos diversos grupos de personagens, de distintos níveis econômicos, habitantes da mesma rua ocupada por um condomínio de luxo, em Recife. Os prédios, que compõem o conjunto habitacional da narrativa, acabam por se tornar o espaço de realização de tensões sociais e históricas, ecoantes do Brasil colonial, tal qual descrito por Gilberto Freyre em seu livro Casa-Grande & Senzala: “Na zona agrária (brasileira) desenvolveu-se, com a monocultura absorvente, uma sociedade semifeudal – uma minoria de brancos e brancarões dominando patriarcais, polígamos, do alto das casas-grandes de pedra e cal, não só os escravos criados aos magotes nas senzalas como os lavradores de partido, os agregados, moradores de casas de taipa e de palha, vassalos das casas-grandes em todo o rigor da expressão”.

Na nova realidade de um Brasil que se urbaniza, o antigo senhor de engenho, representado em O som ao redor pelo personagem Francisco, torna-se investidor imobiliário, não se furtando em considerar a vizinhança em que habita como sua propriedade pessoal. O papel antes reservado aos escravos passa a ser exercido pelas empregadas domésticas, que muitas vezes, quando jovens, são “pegas para criar” por seus patrões, os quais afirmam, por vezes, considera-las “da família” – materializando relações profissionais que estão muito distantes do que se esperaria de uma lógica de trabalho livre. As senzalas transformam-se nas famigeradas “áreas de serviço” e “quartos de empregada”, recintos de dimensões reduzidas e altas temperaturas, por vezes dominados pelo mofo e pela umidade – reservados a uma força de trabalho que, no condomínio, considera-se estar apenas de passagem.

E quanto aos outrora folclóricos jagunços, estes se transmutam nos sempre presentes vigias de rua – representados no filme pelo personagem Clodoaldo, interpretado por Irandir Santos, e seus comandados. Estes deixam de lado o gibão e o chapéu de couro, a peixeira, e a garrucha, para vestirem o já habitual colete preto, sem mangas, marcado nas costas com palavras como SEGURANÇA ou CONTENÇÃO. Longe de visarem cangaceiros e beatos, buscam agora os chamados intrusos, pivetes e trombadinhas, nos quais preferem aplicar seus “cala-boca” ou “sossega-leão”, do que apelar para a lei de um Estado racionalista, sustentado por instituições, ao menos oficialmente, não-patriarcais. E talvez seja neste aspecto que O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro tenha se tornado, infelizmente, defasado. O Brasil arcaico que tanto Glauber Rocha quanto a época em que viveu consideravam moribundo e superado, parece continuar vivo nas entranhas do Brasil moderno.

 

FONTE – http://www.revistadehistoria.com.br/secao/cine-historia/o-brasil-entre-beatos-cangaceiros-e-coroneis

 

Do Tok de História: 1942-O PROTESTO DOS ESTUDANTES NATALENSES CONTRA O NAZISMO

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Autor – Rostand Medeiros

O dia 20 de junho de 2013 foi uma quinta feira para entrar na história de Natal, pois, segundo vários meios de comunicação, neste dia aconteceu a maior manifestação de protesto da história desta cidade. Este protesto era um dos que foram idealizados contra o aumento da tarifa de transporte coletivo urbano e ficou conhecido em todo o Brasil como “Revolta do Busão”.

Motivado pelo desejo de entender o que ocorria, de como pensavam as pessoas que lá estavam e ter a oportunidade de vivenciar um momento histórico na minha própria cidade, eu me fiz presente e não me arrependi de nada.

Em Natal estes protestos tiveram início em maio e detonaram, em maior ou menor escala, os demais protestos contra o aumento da tarifa de transporte em todo o país. Como se sabe estes grandes protestos ganharam as primeiras páginas dos principais jornais de todo o mundo. De acordo com o tabloide americano The New York Times, o povo de Natal teve importante papel nas mobilizações sociais que ocorreram em todo país.

Quando estava no asfalto da BR-101, no último dia 20 de junho, me pus a perguntar qual teria sido outra grande movimentação estudantil ocorrida no passado e que tenha mobilizado Natal desta forma?

A primeira coisa que lembrei foi a invasão da reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, na década de 1980. Na época eu era estudante secundarista e fui até a reitoria para acompanhar a mobilização dos universitários. Este movimento teve muita repercussão, mas o público era mais localizado na UFRN.

Movimento Revolta do Busão em Natal - Foto - Henrique Dovalle/G1

Mas logo veio a minha mente a participação de inúmeros estudantes na Praça Gentil Ferreira, quando houve um dos maiores comícios em termos proporcionais da capital potiguar, na chamada “Campanha das Diretas Já”. Aquele movimento mobilizou toda a nação em torno do livre direito dos brasileiros decidirem através do voto direto quem seria o seu presidente.

Tempos depois houve o movimento do impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, o conhecido “Fora Collor” da década de 1990, que levou milhares de pessoas as ruas vestidas de preto e com as faces pintadas nas cores verde e amarelo. Natal também se vestiu de preto e apoiou o movimento.

Estas lutas políticas com a participação dos estudantes tiveram seus méritos, mas se pensarmos sobre o momento em que o mundo vivia, nenhuma delas conseguiu superar em minha mente o movimento organizado pelos estudantes de Natal contra o Nazismo em 1942. Fato ocorrido antes mesmo dos principais afundamentos de navios brasileiros que motivaram oficialmente a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial.

Tempos Difíceis

No primeiro semestre de 1942 o mundo estava em franca convulsão, a três anos a Segunda Guerra Mundial havia sido deflagrada e as forças nazifascistas dominavam grande parte da Europa.

Soldado alemão em combate

As forças de Hitler avançavam sobre as largas estepes da então União Soviética, onde encontrariam um povo disposto a grandes sacrifícios para expulsá-los de sua nação. Na Ásia, o Império Japonês dominava grandes extensões de territórios e vastas áreas do Oceano Pacifico, mas desde dezembro de 1941 suas forças militares se batiam contra o poderio bélico e industrial dos Estados Unidos.

Já no Brasil a cena política era dominada pela conhecida ditadura do Estado Novo, que teve início com o golpe deflagrado em 10 de novembro de 1937.

A partir desta data o governo brasileiro, sob o comando do gaúcho Getúlio Vargas, retirou dos cidadãos as garantias constitucionais, a Justiça Eleitoral foi suspensa, o direito à greve foi banido e ficou estabelecida a censura prévia à imprensa. Ao outorgar a Constituição de 1937, Vargas proclamou o fim do federalismo e da democracia liberal. Num ato de grande impacto, fez queimar as bandeiras dos Estados. Em seguida, extinguiu a Justiça Federal de primeiro grau. Era um regime totalmente policialesco.

Propaganda típica da época do Estado Novo - Foto - www.infoescola.com

Já para compreender a situação política em Natal neste período, é importante observar dois episódios marcantes; a violenta campanha eleitoral estadual de 1934 e a deflagração da Intentona Comunista de 1935.

Em 1934 comandava o executivo potiguar o interventor Mário Leopoldo Pereira da Câmara, tido como um homem inteligente e capaz, mas que lhe é creditado um período de governo onde imperou um clima favorável ao surgimento de movimentos políticos radicais, que facilmente apelavam para a violência e o uso de armas para conquistar espaços. Durante a campanha de 1934, em várias localidades do Rio Grande do Norte, não faltaram notícias de assassinatos, violências e surras praticados contra adversários.

Quartel da Força Policial, conhecido como "Quartel de Salgadeira", em Natal, após ser metralhado durante a Intentona Comunista - Foto - toxina1.blogspot.com

Logo Mário Câmara deixou o governo potiguar e no dia 9 de outubro de 1935 assumiu o executivo estadual o médico Rafael Fernandes Gurjão.

Em meio a este clima pesado na política potiguar e de mudanças. Menos de dois meses após a posse de Rafael Fernandes, na noite de sábado, 23 de novembro de 1935, sargentos e cabos do 21º Batalhão de Caçadores (21º BC) do Exército Brasileiro, sediado em Natal, iniciaram um levante armado que ficaria conhecido como Intentona Comunista. Logo este levante recebeu a adesão de populares e descontentes com as lideranças governamentais do Rio Grande do Norte. Ocorreram outros levantes no Recife e no Rio de Janeiro.

Tido como o primeiro caso de sucesso de implantação pela força de um governo comunista no continente americano, a Intentona Comunista prevaleceu em Natal por apenas 80 horas, até a madrugada do dia 27 de novembro. Além de dominar a capital e 17 cidades do interior potiguar, sé se encerrou com a vinda de tropas federais da Paraíba e Pernambuco. A consequente repressão foi violentíssima. Levou à prisão de milhares de pessoas e uma das suas consequências foi a implantação do Estado Novo em 1937.

Governador Rafael Fernandes Gurjão

Depois de toda esta agitação, a cidade de Natal voltou a sua pasmaceira habitual, típica de uma capital nordestina que na época tinha em torno de 45.000 habitantes. Mas no final de 1941 esta tranquilidade havia sido quebrada pela chegada de vários militares, engenheiros e técnicos norte-americanos, que vieram desenvolver no antigo campo de pouso de Parnamirim uma das maiores bases militares do mundo.

A Guerra Vem Chegando

Oficialmente o Brasil não estava em guerra no primeiro semestre de 1942, mas muitas situações mostravam que isso logo mudaria.

Em Natal os tambores de guerra eram mais audíveis e os sinais do conflito eram cada vez mais visíveis. Um destes era o fato da gasolina já se encontrar em franco racionamento. Para controlar o consumo havia sido criada a Comissão Estadual de Racionamento de Combustível, sob o comando do Secretário de Governo Aldo Fernandes Raposo de Melo.

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Inúmeras listas eram publicadas nos jornais natalenses com os nomes de jovens potiguares que deveriam servir nas Forças Armadas. Muitos militares, vindos de várias regiões do país, chegavam a cidade para reforçar as nossas defesas e novos aquartelamentos eram criados. Os natalenses presenciavam todos os dias inúmeros aviões de transportes Aliados seguirem para além mar. Das bases de Parnamirim e da Rampa, próximo ao estuário do Rio Potengi, partiam aeronaves norte-americanas de patrulha e destruição de submarinos.

Em meio a esta movimentação os estudantes e a sociedade natalense já estava nas ruas contra a ação dos nazifascistas.

Segundo o livro do baiano João Falcão “O Brasil e a 2ª Guerra Mundial – Testemunho e depoimento de um soldado convocado” (1999, Ed. UNB, pág. 82), a primeira capital brasileira a promover amplas manifestações contra os países do Eixo foi Salvador, depois veio Natal.

Falcão reproduz em seu livro uma notícia do jornal carioca Correio da Manhã, dando conta que houve um grande comício em Natal de solidariedade a Getúlio Vargas. O movimento teve um grande apelo popular, com a participação de milhares de natalenses. Iniciou na Esplanada Silva Jardim, no bairro da Ribeira, onde Amílcar de Faria Cardoso, delegado regional do Ministério do Trabalho realizou empolgado discurso, depois o povo em passeata seguiu pela Avenida Duque de Caxias.

Luís Maranhão Filho, importante líder estudantil e grande idealizador dos protestos ocorridos em Natal contra os nazifascistas - Foto - Coleção do Autor

Consta que acompanhando o povo seguiam bandas de músicas, lanceiros da Força Polícia acompanhavam montados em seus alazões e jovens da sociedade local levavam bandeiras. Defronte a redação do jornal A República o então acadêmico Luiz Maranhão Filho, proeminente líder estudantil, fez um entusiasmado discurso. O cortejo encerrou defronte ao Colégio Atheneu com muitos discursos. Entre os que falaram estavam Rômulo Wanderley, Aldo Tinoco e Djalma Marinho.

Estranhamente o jornal A República, o periódico oficial do governo potiguar e principal jornal do Rio Grande do Norte na época, não divulgou uma linha sobre este acontecimento.

O Povo de Natal Volta as Ruas Liderados Pelos Estudantes

Independente desta questão, cada vez mais os tambores de guerra vão aumentando o tom no Brasil.

Em 11 de março de 1942, Getúlio Vargas decretou o confisco de bens de imigrantes alemães e italianos no Brasil, grupos de espiões nazistas foram descobertos e detidos no Rio de Janeiro. Até mesmo um avião bimotor B-25 da recém criada FAB – Força Aérea Brasileira, operando a partir de Fortaleza, atacou um submarino do Eixo.

Avião B-25 da FAB, que partiu de Fortaleza e atacou um submarino inimigo - Fonte - http://moraisvinna.blogspot.com.br/2012/05/ha-70-anos-o-fortaleza-entrava-em.html

Mas o principal sinal que a entrada do Brasil na guerra estava próxima era o fato que até o final do mês de julho de 1942, nada menos que 14 navios da frota mercante nacional haviam sido atacados e afundados pelos nazistas, com a morte de 136 pessoas.

Em meio a este clima a população de Natal, incentivados pelos estudantes, voltaram às ruas contra os nazifascistas e desta vez sendo extensamente noticiado pelo principal jornal potiguar.

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Na edição do dia 28 de julho de 1942 de A República, e em dias posteriores (como aponta a manchete acima), temos várias notícias apontando que o C E P – Centro Estudantal Potiguar (não era “Estudantil”) estava organizando uma semana de protestos contra os países integrantes do Eixo no mês de agosto, que culminaria com um “comício monstro”. Novamente o poder executivo estadual deu todo apoio a esta iniciativa dos estudantes, que desde o início do processo se colocaram na liderança do movimento.

Foram criadas comissões com a participação de vários segmentos da sociedade potiguar. O Chefe de Polícia aprovou oficialmente a realização dos protestos da “Semana Anti-Eixista”, foi comunicado a UNE – União Nacional dos Estudantes, no Rio de Janeiro a movimentação dos estudantes potiguares. Como parte das comemorações foi realizada uma grande festa no tradicional Aero Clube, o principal da cidade.\

Aldo Tinoco foi outro estudante com forte atuação nestes protestos contra os países do Eixo - Foto - Coleção do autor

Ocorreram várias reuniões preparatórias e convocatórias em Natal, sempre muito acaloradas e com grande participação popular. Entre os locais listamos a Escola Industrial, na Sociedade dos Sargentos da Força Policial e na Liga Artístico Operária de Natal, que ficava localizado na Avenida Rio Branco.

Durante aquela movimentada semana a Rádio Educadora de Natal, a ZYB-5, realizou a transmissão de várias palestras sobre as questões da guerra e a mobilização promovida pelo Centro Estudantal Potiguar. A última transmissão foi realizada por Luiz Maranhão Filho e foi considerada por um colunista do jornal A República como “incisivo”.

Percebe-se, lendo as amareladas páginas dos antigos jornais natalenses que Natal não presenciava uma movimentação política tão intensa, desde a implantação do Estado Novo em 1937.

Logo chegou o dia 11 de gosto de 1942.

O Grande Comício

Foi uma terça feira sem chuva e durante a tarde a cidade de Natal parou. As escolas, o comércio e as repartições públicas fecharam e as pessoas seguiram para a Praça 7 de setembro, no centro da cidade.

Palácio do Governo do Estado do Rio Grande do Norte e Praça 7 de setembro, local da concentração contra os nazifascistas - Foto - Coleção do autor

Palácio do Governo do Estado do Rio Grande do Norte e Praça 7 de setembro, local da concentração contra os nazifascistas – Foto – Coleção do autor

Os estudantes vieram em passeata desde o Colégio Atheneu, sendo animados e acompanhados pela banda de música da tradicional Associação de Escoteiros do bairro do Alecrim. Não faltaram cartazes com caricaturas de Hitler e Mussolini, faixas de incentivo as Forças Armadas e muitas bandeiras do Brasil. Na Praça 7 de setembro havia um potente sistema de auto falantes colocados por Luiz Romão, que era proprietário de uma difusora bem atuante na cidade.

Basicamente a movimentação na praça foi em cima de vários e inflamados discursos. Estes foram proferidos principalmente pelas autoridades, mas os realizados pelos estudantes foram mais aplaudidos e ovacionados, sempre comandados pela vibração de Luiz Maranhão Filho.

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O palanque foi na sacada principal do Palácio do Governo, onde autoridades, oficiais militares de alta patente e inúmeros estudantes dividiram espaço. Figuras politicas como Elói de Souza e o próprio governador Rafael Fernandes deram seu recado ao povo. Basicamente os pronunciamentos giraram em torno dos ataques que já haviam ocorrido contra os navios brasileiros, a política de Vargas na sua maior aproximação do Brasil junto aos países Aliados, principalmente os Estados Unidos.

Nem a imprensa da época e nem as autoridades policiais realizaram algum tipo de contagem da quantidade de pessoas que participaram do chamado “Comício Monstro”. Mas destacam que havia “um mar de gente” e enaltecem que havia “milhares de pessoas”.

Navio brasileiro Baependi, afundado pelo submarino U-507 - Foto - http://www.photoship.co.uk/

Se não fosse as agruras e incertezas da chegada da Segunda Guerra Mundial ao Brasil, seguramente um comício como aquele jamais teria ocorrido.

Para exemplificar apuramos que uma das pessoas que discursaram foi Vivaldo Ramos de Vasconcelos, um estudante da faculdade de direito do Rio de Janeiro e estava representando a UNE em Natal. Segundo o jornalista Luiz Gonzaga Cortez, este era o mesmo Vivaldo Vasconcelos que durante a Intentona Comunista em Natal, foi o elemento de ligação entre os que faziam os preparativos para a insurreição de 23 de novembro de 1935.

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Após o comício existe uma clara ideia que em Natal, depois de todos os problemas políticos ocorridos no Rio Grande do Norte durante a década de 1930, mesmo em meio a uma ditadura feroz, as forças pensantes da sociedade potiguar estavam unidas diante de um problema externo muito maior.

O Brasil Entra na Guerra

Menos de uma semana depois da realização deste comício, Natal e todo o Brasil foram abalados pela verdadeira carnificina promovida pelo Korverttenkapitan Harro Schacht, comandante do submarino alemão U-507.

O Araraquara, outro dos navios afundados pelo submarino alemão U-507, comandados pelo Korverttenkapitan Harro Schacht, que motivaram a declaração de guerra do Brasil - Foto - Coleção do autor

O Araraquara, outro dos navios afundados pelo submarino alemão U-507, comandados pelo Korverttenkapitan Harro Schacht, que motivaram a declaração de guerra do Brasil – Foto – Coleção do autor

Entre os dias 15 e 17 de agosto, na altura do litoral sergipano e baiano, este oficial germânico comandou o afundamento de seis barcos brasileiros, que ocasionaram a morte de mais de 600 pessoas.

As manchetes de A República não deixam dúvidas da indignação no povo natalense e jã não havia mais dúvidas que o Brasil estava em guerra.

 

 

Do Seu History: Volta à tona o mistério do Santo Sudário

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O tecido com que o corpo de Cristo foi envolvido e onde teria deixado a impressão de seu rosto e corpo, segundo a fé católica é fonte de debate entre cientistas e teólogos há séculos. Em 1988, um teste com carbono 14 foi realizado a fim de estabelecer a idade ou antiguidade da relíquia sagrada dos católicos. Os resultados afirmaram que a peça correspondia a época da Idade Média, mais precisamente, entre os séculos XIII e XIV. Entretanto, muitos pesquisadores questionaram o procedimento, garantindo que durante o mesmo haviam ocorrido diversos erros metodológicos. Alguns também afirmaram que o tecido poderia haver sido afetado pelo incêndio ocorrido em 1532 na capela onde estava guardado. Outra teoria é que o tecido teria sido remendado com fibras de algodão durante a Idade Moderna (inexistente quando Jesus Cristo viveu e foi sepultado). O fato é que durante a retirada da amostra do pano para os próprios testes, somente o contato com o ar poderia haver exposto o tecido ao contato com bactérias, cujos dejetos contem carbono e poderiam haver contaminado o resultado das provas. Esta última defesa de parte da Igreja, foi desmentida cientificamente por testes feitos logo depois.
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Apesar de tudo, o Santo Sudário contém elementos que contribuem para o mistério sobre sua origem: em 1978, alguns pontos do tecido, correspondentes a região do nariz, joelho e calcanhar apresentaram partículas que, submetidas a novo exame, revelaram conter restos de travertino aragonite e carbonato de cálcio, materiais comumente encontrados nas tumbas das atuais regiões de Israel. Além disto, o tecido revela ácaros de sepultura, assim como aloe e mirra, elementos utilizados durante o sepultamento de judeus na antiguidade.
O mistério do Santo Sudário está longe de ser desvendado.

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Do Pragmatismo Político:”Fantástico é o racismo da Rede Globo”

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Quadro do programa Fantástico exibiu episódio cujo tema é muito caro para a história da população negra no Brasil

 

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(Captura de tela / quadro O Baú do Baú do Fantástico)

Por Douglas Belchior, em seu blog

 

“A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil“, deveras sentenciou Joaquim Nabuco. Mas na versão global, ironicamente “inteligente”, ele diz: “O Brasil já é um país mestiço! E não vamos tolerar preconceito!”.

Nas últimas semanas escrevi dois textos sobre a relação entre meios de comunicação, publicidade e humor e a prática de racismo, o primeiro provocado por uma peça publicitária de divulgação do vestibular da PUC-PR e o segundo por conta de um programa de humor que ridicularizava as religiões de matriz africana. Hoje, graças a Rede Globo de televisão, retorno ao tema.

Neste domingo 3 de novembro o programa Fantástico, em seu quadro humorístico “O Baú do Baú do Fantástico”, exibiu um episódio cujo tema é muito caro para a história da população negra no Brasil.

Passado mais da metade do programa, eis que de repente surge a simpática Renata Vasconcellos. Sorriso estonteante ainda embriagado pela repentina promoção: “Vamos voltar no tempo agora, mas voltar muito: 13 de maio de 1888, no dia em que a Princesa Isabel aboliu a escravidão. Adivinha quem tava lá? Ele, o repórter da história, Bruno Mazzeo!”

O quadro, assinado por Bruno Mazzeo, Elisa Palatnik e Rosana Ferrão, faz uma sátira do momento histórico da abolição da escravidão no Brasil. Na “brincadeira” o repórter entrevista Joaquim Nabuco, importante abolicionista, apresentado como líder do movimento “NMS – Negros, mulatos e simpatizantes”!

Princesa Isabel também entrevistada, diz que os ex-escravos serão amparados pelo governo com programas como o “Bolsa Família Afrodescendente”, o “Bolsa Escola – o Senzalão da Educação” e com Palhoças Populares do programa “Minha Palhoça, minha vida”!

“Mas por enquanto a hora é de comemorar! Por isso eles (os ex-escravos) fazem festa e prometem dançar e cantar a noite inteira…” registra o repórter, quando o microfone é tomado por um homem negro que, festejando, passa a gritar: “É carnaval! É carnaval!”

O contexto

Não acredito que qualquer conteúdo seja veiculado por um dos maiores conglomerados de comunicação do mundo apenas por um acaso ou sem alguma intencionalidade para além da nobre missão de “informar” os milhões de telespectadores, ora com seus corpos e cérebros entregues aos prazeres educativos da TV brasileira em suas últimas horas de descanso antes da segunda feira – “dia de branco”.

E me perguntei: Por que – cargas d’água, a Rede Globo exibiria um conteúdo tão politicamente questionável? O que teria a ganhar com isso? Sequer estamos em maio! Que “gancho” ou motivação conjuntural haveria para justificar esse conteúdo?

Bom, estamos em novembro. Este é o mês reconhecido oficialmente como de celebração da Consciência Negra. É o mês em que a população a f r o d e s c e n d e n t e rememora, no dia 20, Zumbi dos Palmares, líder do mais famoso quilombo e personagem que figura no Livro de Aço como um dos Heróis Nacionais, no Panteão da Pátria. Relevante não?

Estamos também na véspera da III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, que começa nesta terça, dia 5 e segue até dia 7 de Novembro, em Brasília, momento ímpar de reflexão e debates sobre os rumos das ações governamentais relacionadas a busca de uma igualdade entre brancos e negros que jamais existiu no Brasil. Isso somado à conjuntura de denúncia de violência e assassinatos que tem como principais vítimas os jovens negros, essa Conferência se torna ainda mais importante.

Voltando ao Fantástico, evidente que há quem leia as cenas apenas como um mero quadro humorístico e como exagero de “nossa” parte. Mas daí surge novas perguntas:

Um regime de escravidão que durou 388 anos; Que custou o sequestro e o assassinato de aproximadamente 7 milhões de seres humanos africanos e outros tantos milhões de seus descendentes; e que fora amplamente denunciado como um dos maiores crimes de lesa-humanidade já vistos, deve/pode ser motivo de piadas?

Quantas cenas de “humor inteligente” relacionado ao holocausto; Ou às vítimas de Hiroshima e Nagasaki; Ou às vítimas do Word Trade Center ou – para ficar no Brasil – às vítimas do incêndio na Boate Kiss, assistiremos em nossas noites de domingo?

Ah, mas ex-escravizados festejando em carnaval a “liberdade” concebida pela áurea princesa boazinha, isso pode! E ainda com status de humor crítico e inteligente.

Minha professora Conceição Oliveira diria: “Racismo meu filho. Racismo!”.

A democratização dos meios de comunicação como forma de combate ao racismo

Uma das tarefas fundamentais dos meios de comunicação dirigidos pelas oligarquias e elites brasileiras tem sido a propagação direta e indireta – muitas vezes subliminar, do racismo. É preciso perceber o que está por trás da permanente degradação da imagem da população negra nesses espaços. Há um pensamento racista que é, ao mesmo tempo, reformulado, naturalizado e divulgado para a coletividade.

A arte em forma de publicidade, teledramaturgia, cinema e programas humorísticos são poderosos instrumentos de formação da mentalidade. O que vemos no Brasil, infelizmente, é esse poder a serviço do fomento a valores racistas e preconceituosos que, por sua vez, gera muita violência. A democratização dos meios de comunicação é fundamental para combater essa realidade. No mais, deixo duas perguntas ao governo federal e ao congresso nacional, dos quais devemos cobrar:

O uso de concessão pública para fins de depreciação, desvalorização da população negra e da prática do racismo, machismo, sexismo, homofobia e todos os tipos de discriminação e violência não são suficientes para colocar em risco a concessão destes veículos?

Por que Venezuela, Bolívia e Argentina, vizinhos latino-americanos, avançam no sentido de diminuir a concentração de poder de certos grupos de comunicação e no Brasil os privilégios para este setor só aumentam?

Tantas perguntas…

Do Pragmatismo Político: Educação em casa ou na escola?

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Ensinar os filhos em casa ganha força no Brasil e gera polêmica. Na chamada ‘educação familiar’, famílias optam por ensinar seus filhos na própria casa e não na escola

 

Uma nova batalha vem sendo travada dentro e especialmente fora das salas de aula do Brasil. A polêmica gira em torno da chamada educação domiciliar, em que famílias optam por ensinar seus filhos na própria casa e não na escola.

De um lado da trincheira estão pais que defendem o direito de eles próprios – e não o Estado – decidirem como e onde os filhos serão educados. Ao se dizerem insatisfeitos com o sistema educacional do país, eles mostram aprovações dos filhos em exames como o Enem para corroborar a eficácia da educação domiciliar.

No outro lado da disputa estão o governo e alguns juristas alegando que tirar uma criança da escola é ilegal, além de alguns educadores, que criticam a proposta, especialmente com argumento de que essa prática colocaria as crianças em uma bolha.

Mais sedimentado em países como os Estados Unidos, o homeschooling (como também é conhecido pela expressão em inglês) vem ganhando fôlego no Brasil. Segundo a Aned (Associação Nacional de Educação Domiciliar), há mil famílias associadas no grupo. Mas Ricardo Iene, cofundador do órgão, calcula que, pela quantidade de e-mails que recebe, sejam mais de 2 mil famílias educando seus filhos em casa no Brasil.

O movimento também está conquistando espaço na esfera política. No próximo dia 12, haverá uma audiência pública em Brasília para discutir o tema, na Comissão de Educação e Cultura da Câmara. Na pauta, estará também o Projeto de Lei (PL) do deputado Lincoln Portela (PR-MG), que autoriza o ensino domiciliar.

Advogados da Aned veem na própria Constituição brechas que defendem o direito da família de educar seus filhos (veja box), mas a associação acredita que uma lei específica daria mais segurança aos pais que optam por esta modalidade de ensino.

Por que em casa?

“Quando meu filho tinha 7 anos, um garoto da escola, que tinha 10 anos, batia nele e o perseguia por causa do nosso sotaque baiano”, conta Ricardo Iene, cofundador da Aned (Associação Nacional de Educação Domiciliar), que é natural da Bahia, mas mora em Belo Horizonte (MG) há cinco anos. “Também havia um garoto que ficava assediando milha filha.”

“Fui várias vezes na escola, reclamar, conversar, tentar resolver esses problemas. Mas nunca adiantou.”
O bullying foi um dos motivos que, há três anos, influenciou Ricardo a tirar da escola, Guilherme, de 13 anos, e Lorena, de 15 anos. Mas certamente não foi a única motivação. Tanto para o publicitário que vive em BH como para outros pais, é sempre um conjunto de fatores que o impulsionam a tomar essa decisão.

Mas um deles parece estar sempre presente: o desejo de estar mais envolvidos e presentes na criação dos filhos.

“Vemos crianças hoje em dia que entram na escola às 7 da manhã e ficam até bem depois das 17h ou 18h, porque elas ficam fazem balé, natação e várias outras atividades. Além da agenda cheia como a de um adulto dessas crianças, mal sobra tempo para o convívio familiar”, diz M.L.C, mãe de 4 filhos, todos em homeschool, que não quis se identificar por temor de ser denunciada.

Ricardo também sentia falta do envolvimento de outros pais quando frequentava as reuniões na escola dos filhos, tanto das instituições públicas como das particulares. “Muitos pais nem participavam. E aí, ficava ainda mais difícil melhorar a situação da escola.”

Outro ponto que impulsionou o publicitário e outras famílias a optarem pelo homeschool é o fato de não concordarem com alguns valores morais passados na escola. Ricardo diz que ele e outros associados da Aned costumam se incomodar especialmente com a abordagem de temas como sexo e homossexualidade.

educação casa domiciliar homeschool
Educação domiciliar ganha força no Brasil e gera polêmica (Foto: Reprodução)

Vivendo em uma bolha?

Mas se do lado dos pais praticantes da educação domiciliar só se ouve elogios do tipo “agora meu filho aprende e não apenas decora”, do lado dos educadores, o que se vem são dúvidas e críticas. Muitas críticas.

“Se os pais estão insatisfeitos com a escola, há muitas outras alternativas antes de se colocar o filho em uma bolha”, afirma a educadora Silvia Colello, professora de Psicologia da Educação e outras disciplinas da Faculdade de Educação da USP.

“Além do mais, qual a lição subliminar que se está passando ao filho ao tirá-lo da escola? Certamente algo como, diante de um problema, basta resolver apenas a minha parte, salvar a própria pele, e o resto que se dane.”

Para a educadora, os pais também erram ao acreditarem que com educação domiciliar estão protegendo seus filhos, por estarem em um ambiente amigável, sem bullying, sem competição. “Infelizmente, a vida não é assim. Mais cedo ou mais tarde, essa criança vai se deparar com a realidade. Vai começar em um emprego, por exemplo, onde há competição, bullying, tudo isso.”

Silvia também cita a importância da escola não apenas pelo conteúdo, mas também pela convivência que se tem com outras pessoas e o aprendizado que se tem com isso, seja na hora de se aprender a lidar com o outro, de aprender com os colegas, comparar seus trabalhos e até mesmo de lidar com brigas e desentendimentos. “Toda essa vivência é tão importante quanto português, matemática ou história”, diz a educadora.

Os homeschoolers, no entanto, dizem que as crianças não vivem em uma bolha e têm essa convivência ao encontrarem amigos no clube, na praça, na igreja ou na casa deles e ao frequentarem atividades, como natação, fotografia e judô.

“Acho contraditório”, afirma a educadora. “Se o problema é a perseguição na escola, não tem bullying na aula de natação?”

‘Luta de todos’

A educadora Maria Celi Chaves Vasconcelos, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) aponta um outro problema na prática da educação domiciliar no Brasil de hoje: a falta de fiscalização do Estado. Algo que foi reforçado durante a pesquisa para seu pós-doutorado, sobre o homeschooling e suas implicações hoje tanto no Brasil como em Portugal.

“Diferentemente dos portugueses, que já conseguiram colocar todas as suas crianças na escola, nós ainda estamos caminhando para isso. Então, no momento, seria difícil conciliar sistemas diferentes de educação”, diz.

“Como o governo conseguiria fiscalizar as crianças em educação domiciliar se ainda não faz isso de maneira satisfatória nem com as próprias escolas públicas?” Segundo ela, em Portugal, as crianças em homeschools são registradas nós órgãos regionais e as autoridades fazem um acompanhamento da educação delas.

Ela vê aspectos positivos no método, como ensinamentos passados não apenas em salas de aula, mas também em locais como museus e planetários. E acredita que escolha dos pais em relação à educação dos filhos seja algo inevitável no futuro, quando o Brasil atingir suas metas educacionais.

Enquanto isso, Silvia, a educadora da USP, também defende que essa opção é prejudicial ao projeto de educação do país como um todo.

“É claro que a ensino no Brasil ainda está bem aquém do esperado, mas é preciso se ter uma frente de luta e não de alienação. E essa luta não é só do Estado, mas também das escolas, dos pais, dos professores e de toda a sociedade.”

Limbo Jurídico

Se, no campo da educação, há uma disputa de argumentos pró e contra o homeschool, na campo jurídico ela é ainda mais acirrada.

O governo afirma que a prática é ilegal. Consultado pela BBC, o Ministério da Educação respondeu: “O MEC entende que a proposta de ensino domiciliar não apresenta amparo legal, ferindo o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), a LBD (Lei de Diretrizes Básicas) e a própria Constituição Federal.”

De acordo com a LDB, “é dever dos pais ou responsáveis efetuar a matrícula das crianças na educação básica a partir dos 4 anos.” O ECA afirma que “pais e responsáveis têm a obrigação de matricular seus filhos ou pupilos na rede regular de ensino”. E o artigo 246 do Código Penal traz detalhes do que chama de abandono e intelectual, para os casos de quem deixa de prover instrução.

No entanto, advogados de famílias que praticam educação domiciliar citam interpretações na lei e lacunas jurídicas que, segundo eles, tiram a prática da ilegalidade.

“Segundo a Constituição, a educação é direito de todos e dever do Estado e da família”, diz Alexandre Magno, diretor jurídico da Aned. “Então, o que está na Constituição se sobrepõe sobre o ECA e a LDB. Portanto, se os pais têm o dever de prover educação, têm soberania e liberdade para poderem escolher entre delegar a instrução para uma escola ou eles próprios se incumbirem disso.”

Esse limbo jurídico também é reforçado por exames como o Encceja (Ensino Fundamental) e o Enem (Ensino Médio), que certifica alunos que completarem um determinada pontuação mesmo se não apresentarem diplomas das escolas. Algo que, para Alexandre, seria um aval para a educação domiciliar.

BBC Brasil

Do Alfredo Braga: Desde quando sabemos do Holocausto?

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o surgimento de um mito

 

A definição do termo “Holocausto judeu” não está livre de ser tachada de subjetiva; interessante porém, é saber quando a opinião pública mundial tomou conhecimento que seis milhões de judeus da Europa Central e Oriental estavam ameaçados de morte, ou já haviam sido parcialmente exterminados.

A resposta estaria no Tribunal Militar Internacional de Nurenberg, ou seja, por volta de 1946 pois, uma ampla averiguação somente seria possível depois do término do conflito. Mas analisemos a situação como um todo:

Uma análise das atas do Tribunal de Nurenberg1 resulta que o número dos seis milhões, fixado naquela época, não se balizou por qualquer levantamento estatístico populacional, ou na avaliação de provas ou indícios materiais do crime investigado mas, simplesmente, nos depoimentos de terceiros por parte de dois burocratas alemães das tropas SS. Um deles, o de Wilhelm Höttl2, foi apresentado por escrito e o outro, o de Dieter Wisliceny3, foi apresentado em testemunho oral. Dieter Wisliceny nunca foi, curiosamente, exposto a uma acareação. Ambas as testemunhas afirmaram que tinham escutado de Adolf Eichmann o número dos seis milhões, afirmação posteriormente desmentida por Adolf Eichmann durante o seu julgamento em Jerusalém, em 19614.

Tanto Wilhelm Höttl, como Dieter Wisliceny, foram acusados devido à participação no processo de deportação dos judeus para Auschwitz. Em decorrência de seus testemunhos, eles passaram a ter uma momentânea sobrevida. Enquanto Adolf Eichmann e Dieter Wisliceny foram condenados e executados anos depois, Eilhelm Hoettl nunca mais sofreu qualquer processo jurídico. Aparentemente, trata-se aqui de um acordo entre as partes como retribuição de serviços prestados. Comparando-se a autobiografia de Höttl5 com o seu depoimento, nota-se claramente várias contradições com as informações fornecidas naquela época6.

Não se pode afirmar com certeza que alguns depoimentos prestados junto ao Tribunal de Nuremberg tenham sido assim feitos com o objetivo principal de “salvar a pele” de cada acusado, porém devemos ter em mente que bastava ter pertencido a determinadas organizações consideradas a priori como criminosas, como a SA, ou a SS, para que essas pessoas já fossem, no mínimo, consideradas “testemunhas obrigatórias”.

Retornando ao aparecimento do “número dos seis milhões”, o historiador inglês David Irving, relata em sua monografia sobre o Tribunal Militar de Nurenberg7que líderes sionistas em junho de 1945, ou seja, logo após a rendição incondicional do exército alemão, divulgaram em Washington o número de vítimas judaicas – seis milhões, naturalmente – embora fosse impossível, naquele momento, qualquer levantamento estatístico populacional numa Europa em caos.

Teriam aqui as organizações sionistas um quadro claro da situação, fruto de uma boa relação com os grupos judaicos locais? Um ano antes do aparecimento do livro de Irving, o historiador alemão Joachim Hoffmann, que trabalhou várias décadas para o departamento de história do exército alemão, descobriu que já em dezembro de 1944, o chefe da propaganda soviética, o judeu Ilja Ehrenburg, tinha espalhado na imprensa estrangeira o número dos seis milhões8.

Wilhelm Höttl, por sua vez, encontrou um artigo na Reader’s Digest, ainda de fevereiro de 1943, onde há menção sobre o “assassinato de no mínimo três dos seis milhões de judeus ameaçados por Hitler“. Para mostrar que isso não era simplesmente um caso isolado, seguem algumas manchetes do jornal The New York Times, referente aos anos de 1942 e 19439:

13 de dezembro de 1942, pág. 21:

… relatórios confirmados indicam 2.000.000 de judeus, os quais foram massacrados por meio de todo tipo possível de barbárie satânica, e dentro do plano de extermínio completo dos judeus que os nazistas estão conseguindo pela metade. O abate de um terço da população judaica na área de domínio de Hitler(3×2.000.000=6.000.000) e a ameaça de abate de todos é um Holocausto sem paralelo.

20 de dezembro de 1942, pág. 23:

O que acontece com os 5.000.000 de judeus da Europa ocupada pelos alemães, os quais estão ameaçados de extermínio (…) o número de vítimas judias alcançou agora a cifra assustadora de 2.000.000 (…) 5.000.000 estão ameaçadas do perigo do extermínio (….)(2+5=7 milhões)

2 de março de 1943, pág. 1, 4:

(Rabino Herz disse) para salvar os seis milhões de camaradas judeus (….) que consigam se salvar do abate nazista (….).

10 de março de 1943, pág. 12:

(….) 2.000.000 de judeus que foram assassinados na Europa. (….) Os 4 milhões que estão lá para morrer, estão sendo assassinados segundo um plano”(2+4=6 milhões)

20 de abril de 1943, pág. 11:

Dois milhões de judeus foram liquidados (….) outros cinco milhões estão ameaçados (….)(2+5=7 milhões)

Portanto era presumível que se soubesse que seis milhões estavam ameaçados, pois com bastante segurança conhecia-se quantos judeus moravam naquela região ocupada posteriormente pelas tropas alemãs.

Nós poderíamos então concluir que a origem do número dos seis milhõesnão se firma na comprovação do número de vítimas, mas sim na hipótese de que todos os judeus que se encontravam na área dominada pelo Terceiro Reich estavam ameaçados de morte.

Curioso, porém, é uma citação de uma época na qual os judeus estavam sob o jugo de Hitler e ninguém imaginava uma situação de guerra e uma vitória da Alemanha, a saber, no ano de 1936.

Naquele ano de 1936, o presidente da Organização Sionista Mundial, Chaim Weizmann, foi ouvido pela Comissão Peel a respeito de uma divisão da Palestina. Em seu discurso, Weizmann afirma que “seis milhões de judeus se encontram na Europa, em uma espécie de cárcere, e não são desejados10. Aqui nós temos novamente um quadro aproximado da população judaica na Europa, incluindo a antiga União Soviética. Em 1936 na Alemanha e na Polônia existia uma política anti-semita, sendo que ambas as nações abrigavam cerca de três milhões e quinhentos mil judeus. O restante, dois milhões e meio mencionados por Weizman, não estavam em qualquer forma de prisão de judeus. Entretanto pode-se argumentar que os judeus não estavam totalmente livres, já que a repressão fazia parte da política totalitária da antiga União Soviética, mas não particularmente contra os judeus. Para aqueles que se apressam a justificar o pleito de Weizmann devido a qualquer repressão na antiga União Soviética, isto não pode servir de argumento diante da Comissão Peel. Caso essa repressão fosse motivo para a obtenção da Palestina, ou seja, para remover os palestinos ali estabelecidos há milhares de anos, o que fazer então com os cristãos, ucranianos, alemães, georgianos, mongóis, entre outras minorias também reprimidas na União Soviética? Também os distribuir por uma área palestina? Ou em alguma outra parte do mundo árabe?

O fato é que Weizmann utilizou o impressionante número dos seis milhões de judeus reprimidos para atingir o seu objetivo político, o seu objetivo sionista. Como nós sabemos, ele não conseguiu isso naquela época.

Como podemos verificar, Weizmann não mencionou um holocausto, ou qualquer outra política de extermínio, e muitos até poderiam alegar que o termo surgiu somente durante a guerra. Mas qual guerra seria essa? A resposta correta é a Grande Guerra de 1914 – 1918, conforme a pesquisa do autor norte-americano Don Heddesheimer que trouxe à luz certos fatos interessantes11.

Desde de 1915, vários artigos da imprensa americana noticiavam que os judeus da Europa Central e Oriental estavam sofrendo com a Guerra Mundial. Desde 1919 e até 1927, foram feitas intensas campanhas promovidas por organizações judaicas, arrecadando fundos a título de doações, com o objetivo de “salvar a vida de cinco ou até seis milhões” de judeus europeus.

Vejamos algumas manchetes estampadas no jornal The New York Times:

4 de dezembro de 1926:

…. cinco milhões de pessoas passam fome (….) a metade dos judeus do mundo sofrendo de fome e doenças.

21 de abril de 1926:

Este é o grito proveniente dos judeus europeus (….) um povo inteiro está morrendo (…). Milhões de judeus estão em uma armadilha na Europa (…).

9 de janeiro de 1922, pág. 19:

(….) terror impronunciável e um crime interminável (…), que foi cometido contra o povo judeu. Dr. Hertz esclareceu que 1.000.000 de pessoas foram massacradas e que 3.000.000 de pessoas na Ucrânia foram obrigadas a vivenciar o terror do Inferno ao longo de três anos (….).

7 de maio de 1920, pág. 9:

(…) sofrimento judeu na Europa Central e Oriental, onde seis milhões estão expostos à fome, às epidemias e à fome (…).

5 de maio de 1920, pág. 9:

Para salvar a vida de seis milhões de mulheres e homens na Europa Oriental do extermínio através da fome e doenças.

5 de maio de 1920, pág. 19:

Seis milhões de famintos e enfermas almas da Europa em guerra lançam um apelo a nós (…).

3 de maio de 1920, pág. 11:

Sua ajuda é importante para salvar a vida de seis milhões de pessoas na Europa Central e Oriental.

3 de maio de 1920, pág. 12:

Na Rússia e em países vizinhos, os judeus foram colocados em uma situação especial de perseguição insana (…) Estima-se hoje que mais de cinco milhõespassam ou estão em vias de passar fome, e podem padecer sob uma epidemia de tifo que já atinge as populações vizinhas.

12 de novembro de 1919, pág. 7:

(….) inacreditável e trágica miséria, fome e epidemias para cerca de seis milhões ou a metade da população judaica da Terra (…) um milhão de crianças e cinco milhões de pais e idosos.

31 de outubro de 1919, pág. 582:

Do outro lado do oceano clamam por ajuda seis milhões de homens e mulheres (…) seis milhões de pessoas. (…) Seis milhões de homens e mulheres morrem (…) em um iminente holocausto da vida humana (…) seis milhões de homens e mulheres famintos. Seis milhões de homens e mulheres morrem (…)

Aqui temos pela primeira vez na imprensa, em 1919, e de forma bastante perceptível, o vínculo do número de “seis milhões” com o termo “Holocausto“.

Continuando com manchetes do jornal The New York Times, temos ainda:

26 de outubro de 1919, pág. 1:

…. 4.000.000 de judeus famintos na Europa Oriental.

29 de setembro de 1919, pág. 7:

…. 6.000.000 de almas ou a metade da população judaica mundial em um estado inacreditável de miséria, fome e de saúde.

10 de agosto de 1917:

Alemães deixam judeus morrerem. Mulheres e crianças de Varsóvia passam fome (….) mães judias, mães da misericórdia, estão felizes em ver seus filhos morrerem; pelo menos eles estão livres do sofrimento.

Já aqui temos o vínculo da alegada desgraça dos judeus com o povo alemão. Mas tal manchete permanece na verdade como uma exceção, pois, na realidade, vários setores alemães durante a guerra e depois, ajudaram a distribuir o dinheiro das organizações judaicas para a Europa Oriental. A vinculação de supostos atos de barbárie dos alemães fazia parte da propaganda de guerra, a qual cessou logo após o término do conflito.

Desde então, assuntos pertinentes giravam em torno de supostas perseguições nos países do leste europeu. Neste contexto, o jornal The New York Times de 23 de maio de 1919, na página 12 relata um suposto Pogrom contra os judeus poloneses, que traz consigo uma certa ironia do destino. A redação do próprio jornal duvidava da veracidade do artigo:

Foi mencionado que alguns destes artigos provêm de fontes alemãs ou foram aumentadas por elas, com o objetivo claro de desacreditar os poloneses perante seus aliados, com a esperança de que a Alemanha tire vantagem disso. A Alemanha pode estar envolvida na divulgação deste boato, pode tê-lo inventado, embora teria sido um terrível golpe baixo envolver tantas pessoas em tal objetivo.

Vemos que segundo o jornal The New York Times, afirmações falsas sobre o sofrimento judeu devem ser vistas como terríveis.

Continuando a seqüência de manchetes:

22 de maio de 1916, pág. 11:

Do restante de dois milhões e quatrocentos mil judeus na Polônia, Lituânia e Letônia, permanecem 1.700.000 e, deste total, encontram-se 700.000 em estado de permanente emergência.

Em 1916, apareceu um livro intitulado The Jews in the Eastern War Zone(Os judeus na zona oriental da guerra) que tratava do suposto sofrimento dos judeus europeus. Foram distribuídos vinte e cinco mil exemplares deste livro para pessoas importantes da vida pública americana12. Nele afirma-se que a Rússia teria transformado uma vasta região em um gigantesco campo de prisioneiros, onde seis milhões de judeus seriam obrigados a viver na miséria, sob a permanente ameaça de massacres, sem direitos e sem assistência social13:

Uma espécie de prisão com seis milhões de prisioneiros, vigiada por um exército de guardas corruptos e brutais.

The Jews in the Eastern War Zone foi citado exaustivamente por outras fontes, como por exemplo o jornal The New York Times. As manchetes apresentadas até aqui sobre o sofrimento de seis milhões de judeus durante a Primeira Guerra Mundial, provêm do primeiro ano da guerra:

14 de janeiro de 1915, pág. 3:

Existem no mundo atualmente cerca de 13.000.000 de judeus, dos quais mais de6.000.000 vivem no coração da zona de guerra; judeus cujas as vidas estão por um fio e estão expostos hoje a todo o tipo de sofrimento e penúria. (….)

Voltando ainda mais um pouco no tempo, temos a declaração do rabino Stephen Wise durante um Congresso judaico nos EUA14:

Existem 6.000.000 de argumentos vivos, sangrentos e sofridos, para o sionismo.

Como podemos perceber, parece haver uma mística em torno do número dos seis milhões de judeus; uma espécie de obsessão. De fato, tal número, segundo Benjamin Blech, refere-se aos relatos de uma antiga profecia judaica, a qual reza que o retorno dos judeus à Terra Prometida se daria após a perda de seis milhões de pessoas15.

Não nos devemos esquecer que mediante a Declaração Balfour, o território palestino foi prometido aos judeus pelos ingleses, ainda durante a Primeira Guerra Mundial. A propaganda resultante foi aquela aqui apresentada e tomamos por base o jornal The New York Times, pois ele também gozava àquela época do mesmo prestígio que goza atualmente, e não temos conhecimento de nenhum outro jornal cujo arquivo fora minuciosamente pesquisado. Finalmente, vale mencionar que este jornal já era propriedade de judeus e, neste contexto, citamos o famoso chefe de redação naquela época, Max Frankel16:

Nesta atmosfera (do anti-fascismo) assim como no sentimento de culpa dos não-judeus devido à exploração do Holocausto, encorajaram-se os judeus de minha geração a se imporem culturalmente, olharem com orgulho suas origens, encontrar inspiração literária em suas raízes e se deleitar com a ressurreição de Israel. (….)

Ao invés de me dedicar aos ídolos e paixões, voltei-me para as palavras e argumentos, fazendo parte de uma invasão verbal e desavergonhadamente judaica da cultura americana. Eu estava particularmente satisfeito ao ver que o pior pesadelo dos anti-semitas tinha se tornado verdadeiro: Inspirados em nossa herança de guardiões do Livro, criadores das Leis e contos de história superiores, os judeus na América conseguiram uma influência substancial nas universidades e em todos os meios de comunicação.

(….) Dentro de poucos anos após Punch (“Punch” Sulzberger, proprietário do NYT) obter o posto de chefe, iniciou-se uma era onde não somente o Chefe de Redação – A. M. Rosenthal, mas sim todos os redatores, assinalados com destaque no jornal, eram judeus. Na sala dos fundos da redação, essa situação era descrita, sob a aura de um copo de vodka, como sendo uma situação que carecia de diplomacia, mas que mudou gradualmente, sem cotas para cristãos. (….)

O Times não padeceu por muito tempo sob o seu secreto desejo em superar ou negar as suas raízes. A parcialidade fica claramente demonstrada aqui. A origem do cabalístico número de seis milhões — o qual ainda hoje é utilizado como “número simbólico” até por historiadores de renome em relação ao “holocausto” da Segunda Guerra Mundial17 — não se baseia originalmente em nenhum estudo científico sobre as perdas da população judaica. Não devemos nos surpreender, portanto, que estatísticos mundialmente reconhecidos notem que o número real de vítimas, está ainda muito longe de ser esclarecido18.

Do Um Historiador: LIBERDADE e democracia?

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Charge: Quino

Diante de uma nova invasão estadunidense à Síria, vi uma postagem que está circulando nas redes sociais e que gostaria de publicar aqui no Hum Historiador também.

Trata-se de uma relação dos países que foram bombardeados pelos Estados Unidos com o pretexto de estabelecer a democracia, desde o final da Segunda Guerra Mundial até os recentes bombardeios à Líbia.

Abaixo a lista dos países, junto com o período em que foram bombardeados pelos Estados Unidos, comprovando que, não importa quem esteja ocupando a Casa Branca, a política armamentista e militar deve ser mantida.

  • China 1945-1946
  • Korea 1950-1953
  • China 1950-1953
  • Guatemala 1954
  • Indonésia 1958
  • Cuba 1959-1960
  • Guatemala 1960
  • Congo Belga 1964
  • Guatemala 1964
  • República Dominicana 1965-1966
  • Peru 1965
  • Laos 1964-1973
  • Vietnã 1961-1973
  • Camboja 1969-1970
  • Guatemala 1967-1969
  • Líbano 1982-1984
  • Granada 1983-1984
  • Líbia 1986
  • El Salvador 1981-1992
  • Nicarágua 1981-1990
  • Irã 1987-1988
  • Líbia 1989
  • Panamá 1989-1990
  • Iraq 1991
  • Kuwait 1991
  • Somália 1992-1994
  • Bósnia 1995
  • Irã, 1998
  • Sudão, 1998
  • Afeganistão, 1998
  • Sérvia 1999
  • Afeganistão, 2001
  • Iraq in 2003
  • Líbia 2011

Em meio ao iminente bombardeio da Síria, vale lembrar as óbvias palavras do presidente uruguaio José Pepe Mujica, divulgadas no portal Opera Mundi nesse último sábado (07).

“ÚNICO BOMBARDEIO ADMISSÍVEL SERIA DE LEITE EM PÓ E BISCOITOS”
por Opera Mundi | publicado originalmente em 07/09/2013

É impossível cessar uma guerra com mais guerra, disse o presidente uruguaio sobre possibilidade de intervenção militar

O presidente uruguaio defende que uma ação militar não é o melhor caminho para solucionar o conflito civil no país. “Isso seria tentar apagar uma fogueira colocando mais combustível”, argumenta em referência ao plano norte-americano de intervenção. “A guerra não se resolve introduzindo mais guerra. Isso leva a situação para um caminho de conflitos intermináveis que promove um profundo ressentimento que vai transformar em luta e resistência “aqui e ali”, reitera em entrevista a uma emissora local do Uruguai.

José “Pepe” Mujica, presidente do Uruguai. Foto: Agência Efe

Citado pela imprensa espanhola neste sábado (07/09), o presidente uruguaio fez referências na história contemporânea para argumentar os impactos negativos da guerra. “Cada uma das tentativas nos últimos 30 anos de impor a democracia ocidental – da forma como conhecemos –, na Ásia ou no mundo Árabe, teve o resultado semelhante de sacrifício e dor”, analisou ao El Pais.

Na contramão de Mujica, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pediu hoje (7) aos membros do Congresso que não fechem os olhos ao uso de armas químicas na Síria. “Nós somos os Estados Unidos. Não podemos ficar cegos diante das imagens da Síria. É por isso que peço aos membros do Congresso, dos dois partidos, que se unam e ajam para promover o mundo onde nós queremos viver, o mundo que queremos deixar aos nossos filhos e às futuras gerações”, disse Obama, que procura o apoio do Congresso para ataques militares à Síria. O presidente falou à população em um programa semanal de rádio.

O Congresso norte-americano deve começar, na segunda-feira (9), a debater os ataques defendidos por Barack Obama como reação ao uso de armas químicas no dia 21 de agosto, nos arredores de Damasco, capital síria, pelo qual responsabiliza o regime do presidente Bashar Al Assad.

 

 

Do Viomundo: Gindre: Informação sem contexto pode ser informação nenhuma

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Mídia Ninja, a crise da Abril e o efeito estufa como critério de desempate na Copa do Mundo

 

por Gustavo Gindre, em seu ótimo blog

 

Acompanhei de perto o trabalho que o Mídia Ninja fez nas manifestações de junho/julho no Rio de Janeiro e vi a importância da sua cobertura. Assisti a coragem desses jovens, dispostos a fazer um relato em tempo real das ações violentas de nossa polícia. Como tantos brasileiros, vi inúmeras mentiras oficiais serem desmentidas por reveladoras imagens geradas pelo Mídia Ninja. Também foi fantástico ver como a grande mídia teve sua parcialidade exposta pelo simples contraste com a cobertura em tempo real dos ninjas.

Em grande parte o Mídia Ninja é consequência de dois fatores que se somam para construir a mais radical transformação que se abate sobre a mídia tradicional.

De um lado, o cenário de convergência tecnológica vai tornando a Internet um ambiente multimídia que fagocita as demais mídias. A inerente interatividade da Internet coloca em xeque os modelos unidirecionais da grande mídia. E, ao mesmo tempo, embora não elimine as assimetrias entre grandes grupos econômicos e pequenas experiências colaborativas, a Internet permite que todos possam postar seus próprios conteúdos, ameaçando o oligopólio da grande mídia. Essa parece ser a lição que a bancada do Roda Viva não entendeu.

De outro lado, esse cenário de convergência expôs de uma maneira inevitável os problemas de gestão das empresas familiares que controlam a mídia no Brasil. Com a convergência não é mais possível jogar a sujeira para baixo do tapete e vai ficando cada vez mais evidente que quase todos os grandes grupos de mídia do Brasil estão na bacia das almas, falindo, vendendo patrimônio e diminuindo de tamanho.

É nesse contexto que surgem o Mídia Ninja e diversas outras experiências de mídia colaborativa.

Euforia

Contudo, há que se controlar a euforia. O Mídia Ninja não é a resposta para todos os problemas gerados pelo oligopólio da grande mídia. Eles não são nem mesmo a resposta completa para o desafio de construirmos um jornalismo realmente democrático. Aliás, seria muito injusto cobrar-lhes algo desta envergadura.

Há pelo menos dois grandes desafios que o modelo de jornalismo do Mídia Ninja não consegue responder.

Quando eu ainda ouvia rádio FM, lembro que uma estação jovem do Rio de Janeiro fazia entrevistas na rua com perguntas estapafúrdias como o que o entrevistado achava do efeito estufa como critério de desempate na Copa do Mundo. E as falas postas no ar mostravam pessoas levando a sério aquelas perguntas e buscando oferecer respostas igualmente sérias. Minha hipótese é que o mundo tem ficado cada vez mais complexo, há cada vez mais informação disponível e a grande maioria é totalmente irrelevante. Encontrar sentido nessa barafunda não é tarefa simples.

A grande mídia nasceu e cresceu nos vendendo um serviço de construção de sentido nessa massa crescente de informações. Claro que o sentido que nos vendem traz embutido uma profunda orientação ideológica. Nem poderia ser diferente.

Ora, uma mídia democrática não deveria nos imputar um sentido único para os fatos. Mas, tampouco poderia abrir mão de tentar construir sentidos possíveis. O jornalismo não pode abdicar do seu papel socialmente relevante de construir cenários, analisar contextos, propor alternativas e sugerir nexos causais. E isso a simples cobertura em tempo real não nos fornece.

Muita informação sem contexto pode acabar sendo informação nenhuma.

A grande mídia também cumpriu um importante papel de construir pautas coletivas, que orientassem o debate na sociedade. Novamente, esse serviço vem acoplado com uma visão de mundo conservadora, quando não reacionária. Mas, não devemos jogar o bebê fora junto com a água suja. Essa massa de mídias pode ser muito democrática, mas também pode nos empurrar para um mundo de hiper-fragmentação ou, pior, de segmentação por nichos de mercado. Assim, militantes ambientalistas consomem apenas informações sobre meio-ambiente enquanto fãs do BBB sabem cada vez mais sobre seu reality show favorito e cada um se isola no seu universo informativo. Sem negar a conquista da interatividade e da oferta de informações segmentadas, resta o desafio de saber como construir pautas coletivas a partir de um jornalismo democrático e colaborativo.

Hipocrisia e uma questão para o debate

De uma hora para outra, um bando de jornalistas passou a estar muito preocupado com a origem dos recursos do Mídia Ninja. Esses mesmos jornalistas jamais levantaram sua voz para criticar os empréstimos de pai para filho que sucessivos governos fizeram à grande imprensa brasileira. Ou ao fato da TV Globo ter surgido a partir de dinheiro recebido ilegalmente, vindo da norte-americana Time Life. Ou de como políticos lotearam entre si as outorgas de TV em boa parte do país. Ou ainda à venda de 30% da Abril para o grupo de mídia que deu sustentação ao apartheid sul-africano. Seu obediente silêncio de antes contrasta com o falatório de hoje para demonstrar o tamanho de sua parcialidade em favor de seus patrões.

Por outro lado, há tempos militantes da cultura criticam o Circuito Fora do Eixo (berço do Mídia Ninja) pela suposta contradição entre seu discurso em busca de alternativas para a produção cultural e sua dependência dos mecanismos de renúncia fiscal e dos editais estatais. Esse me parece ser um debate fundamental, não apenas no que se refere ao Fora do Eixo, mas, de uma forma mais ampla, para sermos capazes de entender como o fomento influencia a cultura produzida.

PS do Viomundo: Não acreditamos em informação “neutra”, ou seja, supostamente produzida por venusianos que pairam sobre a sociedade. Como ainda não descobrimos ETs, estamos certos de que cidadãos que produzem informação o fazem a partir de sua formação, classe social, etc. Até aí, morreu Neves. Por outro lado, não temos fetiche pelas novas tecnologias, como se elas fossem mágicas e capazes de produzir alguma transformação. A crença no McBook Pro encantado é muito presente em alguns entusiastas das manifestações de junho. Se não houvesse demanda por informação não filtrada pelo Ali Kamel, poderíamos dar um celular na mão de cada brasileiro Ninja e nada aconteceria. Se não houvesse demandas sociais reprimidas na sociedade brasileira, nem uma chuva de Ipads conectados ao Facebook teria consequências. Em resumo: são os humanos — não a tecnologia, estúpido!